A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Metaficção



AULA INESQUECÍVEL

Luiz Horácio

 

“Entendia que Lúcia e Lúcia eram uma só, desenhos sobrepostos na folha de papel fino. Uma mulher para amar e outra para abandonar, mas as duas iguais, idênticas! Uma menina para salvar e outra para machucar, mas as duas iguais. Idênticas. Um bichinho para cuidar e outro para caçar, uma história para contar e outra para viver, mas, tudo tão igual — tão absurdo.”

 

O trecho acima traduz em O livro da metaficção o que Bernardo disse no romance Lúcia: ele apresenta agora numa linguagem técnica, exemplifica com as bonecas russas, as babushkas, com a foto de Chema Madoz, a escada encostada no espelho e refletida parcialmente, com o quadro onde Magritte pinta a si mesmo, as mãos que se desenham de M. C. Escher, e vários outros exemplos que servem para introduzir o tema do livro.

Tema? Sim, o tema a que me refiro é a mise en abîme, a duplicação, a história dentro da história. O termo mise en abîme foi utilizado pela primeira vez pelo escritor francês André Gide, em 1893. Ao falar da produção de sua obra La tentative amoureuse, discorreu sobre esse processo em Journal 1: “Gosto bastante que numa obra de arte, encontre-se assim transposto, na escala dos personagens, o tema mesmo da obra. Nada esclarece melhor e estabelece com mais segurança todas as proporções do todo”.

Em outras palavras, e de uma forma bastante rasa, colocar uma obra dentro da obra, encaixar uma na outra. Bastante utilizada a definição representada por um escudo que traz em seu centro a reprodução de sua miniatura. Vale ressaltar que não estamos diante de nenhuma novidade, Gide já anunciara sua utilização por Shakespeare, em Hamlet, e Edgar Allan Poe, em A queda da casa de Usher.

Mas se não apresentava novidade com Gide, o que dizer agora, você, apressado leitor, na certa acaba de fazer a pergunta. Não apresentava novidade no que se refere à utilização, mas o estudo da mise en abîme ainda é precário de parte dos acadêmicos brasileiros.

O livro da metaficção começa a preencher uma lacuna imensa em nossos estudos sobre metaficção, mise en abîme, sobretudo acerca do sentido de “realismo” e realidade em arte.

Vale o livro o capítulo “Machado de La Mancha”.

 

(…) como pode ser realista, isto é, preso à realidade cotidiana, um romance intitulado “memórias póstumas”? Desde quando pode ser “expressão fiel da realidade” a narrativa das memórias de um defunto autor escritas pelo próprio depois, e não antes, da sua morte?

 

Aqui o leitor percebe, de maneira acintosa, que o autor não pretende chover no molhado. Vemos um professor provocador, o pesquisador, o estopim da curiosidade, você, vestibulando leitor, sabe muito bem do que estou falando, pois está cansado de tanto ver professores repetindo o óbvio e exigindo de seus alunos o mesmo óbvio piorado, visto que decorado. Pelo menos em literatura. Mas vá questionar os sábios elaboradores das provas, vá.

Voltando ao livro deste professor “diferente”. Bernardo faz a literatura, artes plásticas e o cinema refletirem acerca de si mesmos. O capítulo onde esmiúça o documentário Jogo de cena, de Eduardo Coutinho, faz uma análise brilhante, realmente acrescenta a tudo que já se falou sobre esse realizador. No entanto, ao abordar Janela indiscreta, Bernardo não atua com o mesmo fôlego e seu ensaio se torna uma colcha de retalhos, de Truffaut a Camile Paglia, passando por José Avellar, Ismail Xavier e ainda sobra tinta para citar Cortázar.

Gustavo Bernardo é um grande romancista, está sempre sob o fio da navalha, preço que pagam os que se atrevem a inovar. O livro da metaficção, perdoe a obviedade, refinado leitor, é uma aula inesquecível. O fato de o professor demonstrar certo cansaço ao final não configura nenhum pecado.

 

Suplemento Rascunho, da Gazeta do Povo, fevereiro de 2012


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