A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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Trecho original:

Ele se chama Manuel.

No pequeno quarto nos fundos do hotel, separa com cuidado os cadernos e as canetas. Do lado de fora, na árvore encostada à sua janela, dorme a arara verde.

Algumas vezes Manuel prefere escrever com a caneta preta, outras, prefere a de cor azul. Não gosta, porém, daquelas de cor vermelha. Os professores portugueses, no colégio de Chókwè, abusavam da caneta vermelha nos seus trabalhos. Mesmo na faculdade de Economia, em Maputo, sua redação não era bem aceita. Formou-se com bastante dificuldade, dificuldade que lhe serviu de pouco. Nunca pôde exercer a profissão.

Enquanto escolhe com qual caderno vai começar, pensa na filha que não conhece. Não sabe se a menina sobreviveu, se a recolheram num orfanato, se alguma família a adotou. Se estiver viva, terá perto de quinze anos de idade. Será provavelmente bonita, se não for muito doente ou se a vida não a tiver machucado muito. Será também baixinha, como ele mesmo e a mãe, que morreu na guerra.

À tarde, os hóspedes dessa semana como os das anteriores comentavam a facilidade para línguas do pequeno garçom. Essa facilidade combina com o país que escolheu para viver ou se esconder, mas fora isso também não lhe serve de muito. Às vezes, sente-se como uma arara negra que, em troca de biscoitos duros, se exibe para europeus brancos.

Pensando na filha e em si mesmo como um pássaro preto, Manuel chora uma única lágrima, a de sempre. Enxuga-a do rosto com o dorso da mão e toma da caneta azul. Começa a escrever com ela.



na tradução de Jason Carreiro
:


His name is Manuel.

In the little room behind the hotel, he separates notebooks and pens very carefully. On the outside, on the tree next to his window, the green macaw sleeps.

Sometimes, Manuel prefers to write with the black pen, some other times, he prefers the blue one. He doesn’t like red, though. The Portuguese teachers, in the school in Chókwè abused of the red ink in his papers. Even in Economics school, in Maputo, his writing wasn’t accepted. He graduated with a lot of difficulty, difficulty that wasn’t really worth anything. He could never work in the field he graduated in.

While he chooses in which notebook he’s going to start, he thinks about the daughter he doesn’t know. He doesn’t know if she survived, if she is an orphan, if she was adopted. If alive, she must be around fifteen years old. She is possibly beautiful, if not very ill or if life didn’t hurt her very much. She would also be short, like he is, and she must be beautiful like her mother who died in the war, was.

In the afternoon, this week’s visitors all commented about the short waiter’s ability with languages. His ability has a lot to do with the country he chose to live (or to hide) in, but it doesn’t really have effective value. Sometimes he feels like a black macaw that exhibits itself to white Europeans, working for hard biscuits.

Thinking about his daughter and about himself as a black bird, Manuel sheds a tear. The same tear he always cries. He wipes it off his face and holds the blue pen. He starts to write with it.




e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com