A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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O TERRITÓRIO MOVEDIÇO ONDE SE ASSENTA A VERDADE

Flávio Carneiro

 

Já foi dito que o romance é uma forma híbrida por natureza. Sob seu teto generoso, cabem confortavelmente outras formas de discurso. Num romance, é possível não apenas falar de cinema, televisão, publicidade, psicologia, política e tantas outros temas, como também falar na linguagem mesma desses discursos.

O problema, no entanto, é a medida. Há escritores de mão pesada, que exageram na dose. Muitas vezes a ficção (no caso, o romance) serve apenas de instrumento para que o autor passe seu recado. Seja ele qual for, um recado de ficcionista deve vir sob a forma de ficção.

Para quem exerce profissionalmente o ofício de ensinar em sala de aula e escrever livros de ensaio e crítica literária, o exercício de aliar no mesmo espaço ficção e ensaio pode ser uma grande armadilha. O resultado pode ser um livro em que se percebe um pensamento refinado, original, sob as vestes de um romance chinfrim. Ou, por outro lado, o que vemos (com muita pena) é um grande narrador se afogando nas águas rasas do pensamento superficial.

Gustavo Bernardo já provou que sabe fugir dessa armadilha. Sua obra, tanto a de ficcionista quanto a de ensaísta, mostra o necessário equilíbrio entre as partes – equilíbrio, diga-se de passagem, que não necessariamente se traduz num meio a meio, já que a cada página os discursos dialogam em tensão constante e, aqui e ali, um se sobrepõe ao outro para de algum modo se harmonizarem no final.

A mistura aparece bem temperada em vários livros do autor (lembro, dentre outros, o romance Lúcia), como no primeiro volume da Trilogia da Utopia, O mágico de verdade. Neste, questões filosóficas (como o próprio conceito de utopia, por exemplo), são atravessadas por uma questão maior: o que é a verdade? Questão que, por sua vez, está na base de toda a literatura.

Pois é justamente aí – no território movediço onde se assenta o conceito de verdade – que Gustavo Bernardo faz cruzarem os discursos da literatura e da filosofia, agora em Monte Verità, segundo volume da trilogia.

E ao entrar no livro, o leitor sabe (ou pelo menos desconfia) que está diante de um romance. Numa linguagem simples, sem malabarismos que poderiam tornar um tanto árida a leitura, o leitor vai sendo apresentado a um personagem marcante: um homem negro, baixo, com uma arara-verde pousada no braço, observa solitário e em absoluto silêncio uma estátua abstrata, erguida no Monte Verità, na Suíça.

À cena de abertura, quase estática, segue-se uma narrativa ágil, envolvente, que por um momento fez o resenhista (este) se arrepender de estar diante do livro como leitor profissional, tomando notas para escrever depois sobre ele e não simplesmente se entregando à leitura pura e simples.

E o envolvente da narrativa de Monte Verità começa pela situação insólita, lembrando um romance de ficção científica, que se apresenta nos primeiros capítulos: num domingo comum, como tantos outros, uma mensagem bombástica surge de repente – e ao mesmo tempo – em vários jornais do mundo. Surge do nada, aparecendo na página do jornal como se fosse mágica, e também em todos os canais de televisão, nas telas de cinema, o comunicado se espalhando pelo mundo na língua de cada leitor, independente de onde estivesse.

A mensagem primeira alerta para a chegada de outras, sempre aos domingos e do mesmo modo, e a mesma inquietação que move os personagens – de onde viriam os comunicados, de outro planeta? – move também o leitor, cuja curiosidade vai sendo alimentada não apenas pela expectativa do próximo comunicado como também por outra história, a do homem apresentado no início do romance.

Os comunicados anunciam intervenções surpreendentes no mundo até então tido como normal, intervenções operadas por este não-se-sabe-quem (ou o quê) que anuncia coisas como o completo desaparecimento de todas as armas de destruição em massa do planeta (conceito entendido em tal amplitude que até as pistolas de pirata são incluídas) e a reprogramação genética dos animais com vistas a prepará-los para se defender dos homens de forma eficaz. E mais: as intervenções não ficam apenas na conversa, acontecem de fato.

Aos poucos, uma e outra história vão se cruzando e sugerindo um encontro em alguma página mais adiante. A cada comunicado, o narrador vai alinhando as impressões das pessoas, suas leituras do que está ocorrendo, a que se juntam as leituras do próprio narrador, de modo que o romance vai sendo construído ao mesmo tempo por ação e interpretação, enredo e leitura do enredo, numa arquitetura engenhosa que, sem deixar de ser um romance envolvente, é também uma porta de entrada para reflexões filosóficas de peso.

E como se não bastassem as doses de divertimento e reflexão (que, aliás, nunca foram excludentes, como Gustavo Bernardo bem sabe) e ainda as tiradas de humor que permeiam toda a narrativa, o livro reserva ao leitor um presente no final, uma pequena surpresa (de verdade).
 

Jornal do Brasil, 06/06/2009


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com