A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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MONTE VERITÀ

Giselle Maria

 

Gustavo,

eu estava em uma ilha, a cinco minutos de barco da minha casa, no último domingo. Primeira vez que fui lá, ilha Cacique, mesmo nome do colégio em que trabalho, o que fez com que eu sentisse que a ilha era minha por direito. Ainda mais porque estava quase sozinha nela, apenas lanchas cruzando o mar à frente, criando ondas nas águas sempre calmas e transparentes da ilha, minha ilha. Enquanto tomava banho, como uma recém típica angrense – de cabeça na água gelada, sem frescura como no comercial de cerveja –, olhava minhas mãos e pernas debaixo d’água, junto a peixinhos brancos como pétalas de lírios.

Peixinhos brancos, como lírios.

Os peixinhos brancos contrastavam com o preto da minha pele, bem nítido na transparência da água. E ali, sem ninguém por perto, éramos eu e os peixes iguais: únicos na água única.

Pensava nisso quando chegou às minhas mãos seu Monte Verità (acredita que tive que buscá-lo no correio?; problemas com o CEP do vilarejo onde moro). A estória do moçambicano que é também a história de todos nós, esse poder que a literatura tem de ampliar seus tentáculos para além das páginas.

Os contrários à literatura afirmam que ela não resolve os problemas do mundo. É bem verdade. Provavelmente os escritores só escrevem por não terem muito o que fazer, em seus momentos de ócio – ou, pelo contrário, escrevem por terem muita coisa a fazer, como válvula de escape. Talvez, para a vida prática, livro seja mesmo o que os contrários à literatura acham – e a maioria das pessoas também: uma besteira. Ainda mais se você trabalha das seis da manhã até as dez da noite (contando o sufoco das lotações) e as contas te esperam, gritando, sobre o rack da sala.

É.

Não, não é, e seu livro está aí para provar isso.

Nas 101 páginas de leitura, marcada com o selo “jovens leitores” apenas para a editora se aproveitar do filão da literatura infanto-juvenil, que eu sei, pois é literatura com “censura livre”, para qualquer idade, literatura de e para gente grande, de 8 a 80 e tantos, enfim; nas 101 páginas, você discute esse senso-comum sobre a literatura (o que afirma que literatura não serve para nada) escrevendo, ou melhor, pensando exatamente um escritor.

Acredito que pensar um escritor não deve ser tarefa muito fácil, principalmente quando ao desenhá-lo abdica-se do padrão que se tem de um escritor (e que é o seu próprio) e parte-se para a margem, aquela que já não devia ser mais. Manuel é negro, africano, mas (entra aí a conjunção do preconceito); mas, economista, culto, poliglota – e qualquer semelhança com “ele é preto, mas é bonito”, “ele é árabe, mas é legal”, “ela é mulher, mas é inteligente” não é mera coincidência. Boa sacada pensar um escritor a contrapelo, se posso (e, por Deus, não posso!) parafrasear Benjamim. Pensar um escritor, pois Manuel é um escritor, para falar sobre literatura.

Pois para mim é disso que fala seu livro, antes de qualquer coisa, sobre literatura. Melhorando: sobre o poder da literatura como discurso. Racismo, etnocentrismo, especismo, esse conjunto de “vergonhas éticas”, como diz a capa de seu livro, tem sua realização no discurso. É no discurso que esses sistemas de poder, para usar um termo de Foucault, acredito que com mais propriedade, circulam suas “verdades”, que nada mais são que efeitos de poder. E nesse jogo discursivo, enunciativo, a literatura, como discurso, tem o papel de advogada do diabo. Contestar estes sistemas de poder através de uma forma de poder: eis a literatura.

Eis Manuel, o escritor de uma estória; eis Gustavo, você, o contador de uma história. Cravado pelos dardos da guerra, o personagem é um sobrevivente. Assim como a literatura, não ameaçada pelas novas tecnologias e sim pelas antigas ignorâncias; assim como os escritores, não ameaçados pela falta de talento ou inspiração, mas sim pelos desmandos do mercado. Manuel, um sobrevivente que tem que aturar intelectuais engravatados a admirarem seu saber como se admira um bicho exótico num circo – olha como ele fala, que coisa!, é o único de sua espécie! Seu livro toca em feridas que em muitos de nós não cicatrizaram e nem vão cicatrizar.

(Ainda temos que provar alguma coisa e é isso que fere, ter que provar. Não me importaria em dar provas de minha competência, inteligência, talento, professor, se as mesmas fossem pedidas de maneira igual a todos os demais, mas não são. Isso é que dói.)

Fiquei pensando: Manuel sobrevivente escreve o quê? Comunicados, sim. E o que comunica Manuel? O que nós, professor, comunicamos? O que todo escritor comunica? A verdade? O cume do monte verità que todos ansiamos? A crença, a fé, a desconfiança como fé? Acho que todo mundo quer uma (re)criação, como a que comunica Manuel, marcada pela intertextualidade, o discurso bíblico retomado, a simbologia do sete, “e no sétimo descansou Deus de tudo o que tinha feito, e tudo o que tinha feito era bom”.

E não só essa simbologia, como também a do próprio nome, Manuel, tão semelhante a Emanuel, Deus conosco, o Deus cristão da verdade. Retoma-se a religião para questioná-la? Mas não se foge ao fato de que se sente a necessidade de questionar, o que produz, em certa medida, o efeito contrário. Precisa-se de religião, chega o seu narrador à conclusão, ao menos para desprezá-la, odiá-la. Mas digo, Gustavo, que precisamos de Deus para nos defender de nosso desprezo por nós mesmos, nosso ódio-próprio.

Ódio do homem negro e sua arara (belíssima capa) – mas de onde tirou a idéia da arara? – seminublados pela névoa que baixa do céu. Qual é o poder de Manuel? Qual é o poder da literatura? Qual é o seu poder? O poder da palavra.

Palavra que “como o martelo” pode “esmiuçar a penha”, para continuar na metáfora bíblica.  A literatura não faz despoluição em massa, não limpa o mundo da ganância representada pelo petróleo, não recolhe as armas de destruição. Mas a palavra literária “martela” a mente dos leitores e os (nos) leva a fazer o que muitos de nós já temos esquecido: nos leva a pensar, Gustavo. Isso: pensar. Pensar. Eis o poder da literatura como discurso.

Pensar em nossa cota de responsabilidade sobre a tragédia em que nos transformamos; pensar no que é ética e o que esse “termo” tem a nos dizer; pensar na superficialidade de nossas relações, de nossos sentimentos; pensar em nossos (que dor!) preconceitos.  

Foucault disse certa vez que antes de querer mudar o que as pessoas têm na cabeça deveríamos nos preocupar em mudar o regime político da produção da verdade. Entendo aí que se deve “atacar” as bases de “verdades” do tipo a minha raça é superior a sua, o meu país, o meu sexo, é superior ao seu, a minha fé me dá o direito de te matar por você professar a sua etc, colocando o foco num nível coletivo, numa mudança estrutural da sociedade. Entendo, mas, em certa medida, discordo. Talvez esteja equivocada (muito provavelmente),  mas acredito tamém no ditado repetido por minha lúcida bisavó de 102 anos, na sabedoria de quem acumula décadas e tataranetos: “de grão em grão a galinha enche o papo”. Se não tenho a chance de fazer uma macro-mudança, tenho aval para as micro-mudanças, nem que seja em mim mesma, nem que comece em mim. Esse seu livro, professor, é um belo grão, e como grão já é muito válido.

Desculpe o extenso das linhas, mas seu livro gera desabafo, acho que ele mesmo é um desabafo, não dava para comentá-lo com a frieza de um ensaio. Prefiro a espontaneidade da conversa.

 Angra dos Reis, 27/06/2009


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