A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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MONTE VERITÀ

Jason Manuel Carreiro

 

Em outro post aqui no weblog, há alguns meses, eu afirmei ter lido TUDO de Gustavo Bernardo. Hoje vejo que menti descaradamente pros amigos leitores – eu li todos os ensaios e toda a ficção, digamos, adulta do autor. Mas, propositalmente, ignorei os infanto-juvenis.

Felizmente, sempre é tempo para reparar nossos enganos. E senti-me compelido a preencher esta lacuna a partir da leitura do mais novo “infanto-juvenil” de Gustavo Bernardo: Monte Veritá.

Para que o leitor entenda melhor, vou me valer de um clichezão muito utilizado pela crítica cinematográfica em relação aos grandes filmes da Pixar, como por exemplo Procurando Nemo, Ratatouille ou ainda Wall.E: embora visem o público jovem, estes filmes devem também ser vistos pelos pais. O mesmo se aplica à ficção “infanto-juvenil” de Gustavo Bernardo: os adultos podem aprender muito.

Monte Veritá “inclui” a história de Manuel, um moçambicano expatriado formado em economia que trabalha como garçom na Suíça italiana. Manuel possui a fantástica capacidade de falar diversas línguas, além de gostar de escrever.

Mais elementos sobre o enredo, não posso entregar. Só posso dizer que os paradoxos tão caros aos estudos do autor estão todos lá, convidando os jovens a duvidar sempre e a movimentar o pensamento: um professor brasileiro que estuda um filósofo tcheco encontra-se com Manuel (ficção ou realidade?), um evento-chave criado por Manuel se repete na “realidade” em que ele vive (ficção ou realidade?), etc.

Como o livro é o segundo volume da “Trilogia da Utopia” (cujo primeiro volume é O Mágico de Verdade, de 2006), devo também destacar as críticas ao modo como nós tratamos os animais, o planeta, e a nossa derrocada ética – o “subtexto”  que aponta possíveis soluções para a derrocada humana no planeta é, no mínimo, instigante. E é justamente por isso que eu afirmei que adultos deverão também se deliciar com o livro: apesar de curtinho (o livro possui somente 101 páginas), ele é riquíssimo em temas bons para se refletir por horas a fio.

Achei divertidíssimo, à página 96 do livro, a presença da noção de felicidade segundo Kant, exatamente como desenvolvido em A ficção cética, de 2004. O que comprova que há maneiras inteligentes de se convidar o leitor, seja ele de qualquer “público-alvo”, a refletir. E Gustavo Bernardo faz esse convite com maestria, seja através de seus instigantes ensaios, através de suas “ficções filosóficas”, ou de seus livros infanto-juvenis que, devo dizer: vou ler todos, sem preconceito.

 

http://jasoncarreiro.wordpress.com, 08/06/2009


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com