A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


monte verità br                                          monte verità canada
  
  
MONTE VERITÀ
Luciano Câmara


Manuel, não sabe como, conseguiu passar por cima dos demais corpos para cair de joelhos e abraçar a menina. Com os olhos secos, ela o olhou e disse, calma: “Papai, Deus chegou atrasado.”

Manuel é moçambicano. Seu nome é um típico nome português. Sua pele, entretanto, é negra, característica dos naturais da África subsaariana. Manuel é um negro moçambicano com nome de português que está diante da filha, em choque; e da mulher, que jaz sem vida, assassinada, junto com diversas outras vítimas. Manuel, sua filha e sua mulher, estão dentro de uma igreja em Moçambique, construída em nome do Cristianismo, religião europeia, inspirada nas pregações de um profeta judeu peripatético. Profeta que, em suas próprias palavras, teria vindo para que as pessoas tivessem “vida, e vida em abundância”. Mais à frente, Manuel perderá também sua filha. Mas, diferentemente do desfecho terrível reservado à sua mulher, Manuel terá que conviver com algo ainda mais torturante: não saber o que teria acontecido à menina. Não saber por onde ela anda, se está viva ou morta, se está mal ou menos mal.

Estes dois desastres mudarão Manuel para sempre. E o mundo nunca mais será o mesmo...

Moçambique não pode ser considerado um dos lugares mais seguros para se viver. A silhueta de um fuzil AK-47 em sua bandeira nacional dá muito bem o tom dos termos em que a nação se formou. As lutas e as guerras parecem estar marcando a região desde tempos imemoriais. Antes da chegada e do estabelecimento dos portugueses no século 16, sua costa já era dominada por mercadores árabes, captores e traficantes de escravos. No século 20, a luta pela independência contra Portugal começa a ganhar força na década de 60. Já em 1974, a Revolução dos Cravos, em solo português, impede que Portugal mantenha o nível dos esforços de guerra em suas colônias africanas. A balança começa a pender para o lado dos insurgentes africanos. O processo culmina com a independência das três colônias portuguesas, Moçambique, Angola e Guiné-Bissau. Mas não com o fim dos confrontos.

Em Moçambique, uma guerra civil seguiu-se imediatamente à independência, durando até 1992. Entretanto, o país nunca esteve livre das tensões políticas, e continua entre os mais pobres do mundo. Neste exato instante, em setembro de 2013, observadores políticos nacionais e estrangeiros se preocupam com o que chamam de estado de “quase guerra” que vive o país. O diretor do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos de Moçambique, Luís Brito, diz que “estamos a viver uma situação de guerra embrionária, porque para circular numa parte do país só com colunas militares. É uma situação de quase guerra: assiste-se à concentração de forças policiais e militares governamentais na região centro, bem como a ações de perseguição e destruição de acampamentos onde estariam instalados ex-guerrilheiros”.

 Não sabemos em qual momento desta eterna crônica de conflitos Manuel é surpreendido pelo assassinato de sua mulher. Mas sabemos o que acontece na sequência através do livro de Gustavo Bernardo, Monte Verità. Manuel procura “reorganizar a vida para cuidar sozinho da menina e, ao mesmo tempo, lutar por justiça”. Manuel, que é poliglota e formado em economia, escreve cartas para jornais, para autoridades, para o exterior. Consegue chamar a atenção não dos destinatários, mas dos assassinos, e acaba precisando fugir momentos antes de buscar a filha na escola. Este forçado abandono o marcará a ponto de querer mudar o mundo para sempre, de forma radical e irreversível.

O economista africano encontra a chance de reorganizar a vida, sem a filha para cuidar sozinho, e na companhia de uma arara moçambicana, na Suíça, país europeu como Portugal, mas que diferentemente do vizinho ibérico, não se envolveu em aventuras pela África. Entretanto, a posição de neutralidade frente aos acontecimentos políticos internacionais, a sociedade extremamente organizada e a população impecavelmente educada escondem um passado de guerras e lutas, que começou a se estabilizar apenas em meados do século 19. A Suíça também teve lá suas pelejas. E na Suíça, Manuel consegue trabalho, de garçom, em um hotel onde se sucedem inúmeros congressos internacionais. Nesses congressos, Manuel mantém em dia as línguas aprendidas, dirigindo-se aos hóspedes em seus idiomas, transformando-se em figura pitoresca, não visto como alguém com potencial ou vocação para atividade de cunho mais intelectual. Ele também não parece estar preocupado com isso. Ele precisa se ater ao que é importante.

Manuel pensa em sua filha. Pensa também que o mundo poderia ser diferente, muito diferente do mundo que levou sua mulher prematuramente e levou e ainda leva outros milhares de moçambicanos e milhões, talvez bilhões de seres humanos ao redor do globo. Economista, tradutor, intérprete. Tais atividades não parecem fazer falta ao garçom. Manuel precisa fazer outra coisa. Manuel precisa escrever. Escrever é o que o mantém vivo e com esperança. Sua escrita é poderosa e também pesada. Pesada como a onipotência. Carrega a lembrança da mulher e da filha, mas carrega também o peso de gerações que remontam sabe-se lá qual época, período, era e mesmo íon geológico. Manuel não possui, todavia, a paciência evolutiva dos tempos. Manuel mal consegue conter a urgência humana dentro de si.

Monte Verità é o nome do hotel em que Manuel trabalha, mora, se refugia e escreve. O hotel está inserido em plácida paisagem suíça, com direito à visão de lago de águas tranquilas logo abaixo. Este não é um hotel como outro qualquer. As pistas de sua peculiaridade começam mesmo em sua arquitetura em concepção Bauhaus. A escola, inaugurada em 1919, surgira para “impedir a escravização do homem pela máquina, preservando da anarquia mecânica o produto da massa e o lar, insuflando-lhes novamente sentido prático e vida”, nas palavras de seu fundador, o alemão Walter Gropius. Em 1919 a Europa já vivia décadas de imersão em máquinas e produtos produzidos pela Revolução Industrial. Agora, o continente experimentava as consequências de uma devastação nunca antes alcançada, possibilitada pela própria Revolução. A inundação de produtos de massa deixara artesões e artistas em completa perplexidade. Esse descontentamento aumentou ainda mais com a chegada da Grande Guerra. Mas Gropius tinha a capacidade de enxergar além. Sua escola tinha o objetivo de extrair o melhor das máquinas e do indivíduo. Como a indústria continuava “a lançar no mercado um sem-número de produtos mal enformados, enquanto que os artistas lutavam em vão para aplicar projetos platônicos”, Gropius buscava transpor “o abismo entre realidade e idealismo”. A ideia não era rejeitar ingenuamente o avanço tecnológico, nem abraça-lo sem questionamento. Gropius entendia que a atuação do artesão, do artista e do designer dentro da produção de massa resultaria em produtos mais adequados, mais humanizados, e em escala nunca antes alcançada.

É inegável que o Monte Verità tenha sido erguido em 1927, concebido pelo arquiteto Emil Fahrenkamp, com todas estas questões existenciais em perspectiva. Mas a história do local onde o hotel foi construído é ainda mais peculiar.

Monte Verità é o nome de um lugar, na comuna suíça de Ascona, com vista para o Lago Maggiore (Lago Maior), que serve de fronteira entre Itália e Suíça. O lugar ganhou este nome (Monte da Verdade) no decorrer da primeira década do século 20. Ali, nascia uma comunidade que buscava uma vida menos artificial, um retorno à natureza, em oposição à sociedade europeia patriarcal sufocada pela mecanização e pelo militarismo. Utópicos, vegetarianos, nudistas, anarquistas, pacifistas, dos mais incógnitos a uma extensa lista de famosos, como Richard Strauss, Carl Jung, Hermann Hesse e Max Weber, conviveram em algum momento na comunidade estabelecida no Monte Verità, fazendo do local um dos berços mais importantes dos movimentos alternativos. Ali trabalhavam, moravam, se refugiavam e criavam artisticamente sob uma ótica de vida extremamente oposta ao estabelecido lá fora.

Monte Verità é também um livro do escritor, professor e teórico da literatura Gustavo Bernardo. Gustavo, que em seus livros transita entre a ficção e a reflexão filosófica sobre a literatura, desta vez nos apresenta a história do refugiado Manuel em ficção para o público jovem. Mas aqueles que conhecem o professor percebem logo de início que restringir o público leitor do livro é uma incorreção, e que não se trata de pura ficção. Aliás, talvez precisemos admitir de uma vez por todas: ficção total é algo que não existe. Talvez seja a utopia perseguida pelos analistas literários ortodoxos e avessos à inquietude inerente à obra literária. De forma inversa, mas ainda mais inquietante para tais analistas, sejam acadêmicos, críticos ou editoriais, a não-ficção é ainda uma utopia mais distante de se alcançar. Como não há literatura (qualquer literatura) sem autor e sem recorte, não há como a literatura reproduzir a realidade. Todo escritor escreve sobre o que é ou sobre o que gostaria de ser. E também escreve sobre o que não é ou não gostaria de ser. Enfim, sobre tudo. Mas esse tudo é marcado de modo incontornável pelo que ele é, conforme-se ou não com isso. Isto acontecerá com Gustavo Bernardo, com este ensaísta e com Manuel, moçambicano, garçom, poliglota, amigo de uma arara, economista, escritor, pai de uma filha desaparecida e órfã de mãe, refugiado em um hotel suíço erguido em um lugar que carrega ecos de inquietação com o mundo há quase um século. Ou segundo o escritor Robert Landmann, desde o longínquo século 12.

Manuel trabalha, mora, se refugia e cria uma nova forma de viver. Sua caneta desliza sobre o papel levando todo este histórico comportamental, mais a carga conflituosa que trouxera de seu país de origem, além da marcante experiência pessoal. Manuel “escreve para reencontrar a filha ou ao menos salvá-la, do que exatamente não sabe com precisão (mas imagina).” Manuel, todavia, “descobre que não pode falar da filha porque as lágrimas borrariam as páginas do caderno. Mesmo que conseguisse se segurar, o choro acabaria escorrendo pelo seu braço e pelo tubo da caneta para estragar a tinta”. Manuel escreve estão de forma hiperbólica. Ele busca então reencontrar não apenas a filha, mas toda a humanidade, diluindo a gravidade particular na gravidade global. Quem sabe Manuel percebe que mesmo reencontrando a filha, não poderia mantê-la a salvo com todo o mundo se desmoronando ao redor? Walter Gropius percebera que não haveria retorno após o advento da Revolução Industrial, e propôs uma escola de design que levasse em conta a indústria, absorvendo o que ela pudesse oferecer de benéfico à vida humana. Manuel percebe que precisa ir além. Durante sete semanas, seis intervenções mundiais, precedidas por um comunicado preliminar sobre as reformas, mudarão a história de toda a humanidade. Não apenas de Manuel e de sua família. Estas intervenções deixarão as pessoas atônitas e impotentes. A reforma virá e pronto. Não há recurso ou apelação possíveis. Ao contrário do julgamento do Mensalão, a sentença é irrecorrível. As intervenções são feitas de modo a restaurar o equilíbrio entre a vida humana e todas as demais formas de vida na Terra. Compreendendo que o principal, talvez o único, causador desse desiquilíbrio é o homem, Manuel o ataca frontalmente. Diminui sua capacidade de reprodução, limita seu acesso à produção de energia, diminui significativamente seu poder de se armar e dota os demais animais de condição de reação ao ataque humano como jamais pensaria o mais imaginativo escritor de fábulas. Para trazer o homem a uma condição de equilíbrio consigo próprio e com a natureza é preciso tolher o próprio homem.

Esta visão do homem é compartilhada pelo programa de computador Sr. Smith no filme The Matrix. Para nossa total vergonha e desconcerto, Smith discursa com impecáveis lógica e pronúncia para o alquebrado e sob custódia Morpheus, um dos heróis da lado humano do embate:
 

I´d like to share a revelation that I’ve had during my time here. It came to me when I tried to classify your species and I realized that you’re not actually mammals. Every mammal on this planet instinticly develops a natural equilibrium with the surrounding environment, but you humans do not. You move to an area and you multiply and multiply until every natural resources is consumed. The only way you can survive is to spread to another area. There is another organism on this planet that follows the same pattern. Do you know what it is? A virus. The human beings are a desease. A cancer on this planet. You are a plague. And we are the cure.

 

Eu gostaria de compartilhar uma revelação que tive durante meu tempo aqui. Ela veio quando eu estava tentando classificar sua espécie e compreendi que vocês não são na verdade mamíferos. Cada mamífero neste planeta desenvolve instintivamente um equilíbrio com o meio circundante, mas vocês humanos não o fazem. Vocês chegam a um lugar e se multiplicam e se multiplicam até que todos os recursos naturais estejam consumidos. A única maneira que vocês encontram para sobreviver é se propagando para outro lugar. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão. Você sabe qual é? Um vírus. Os seres humanos são uma doença. Um câncer sobre este planeta. Vocês são uma praga. E nós somos a cura.

 

Apesar da fanfarronice do final, mais próxima de uma bravata terrivelmente humana do que da mente racional de um software desenvolvido por outros softwares, as palavras do Sr. Smith apontam para uma verdade irrecorrível: nós somos os únicos causadores de nossa própria miséria. Mas a cura apresentada por Smith se resume a aprisionar os humanos e transformá-los em fonte de energia para as máquinas que governam o planeta. Sem segundas chances para o homo sapiens.

Máquinas estão sempre assustando e aprisionando os humanos, na ficção ou no “mundo real”. Manuel não recorre a elas, mas suas proposições por vezes nos amedrontam. De tão precisas e inflexíveis que se apresentam, parecem estar saindo de uma mente cibernética que tudo pode e tudo controla. Mais ou menos como V.I.K.I, o computador central que coordena robôs criados para servir e proteger o ser humano, no filme I, robot. V.I.K.I., para o bem dos humanos, resolve aperfeiçoar as três leis a que são submetidos os servos robôs: 1 – um robô nunca poderá ferir um ser humano, nem permitir, por inação, que um humano seja ferido; 2 – um robô deve seguir as ordens dadas pelos seres humanos, exceto as ordens que violem a primeira lei; 3 – um robô deve proteger sua própria existência, a menos que isto viole a primeira e a segunda leis. Como uma inteligência artificial sempre está em desenvolvimento, V.I.K.I. percebe sem muita demora que os humanos são altamente autodestrutivos e começa a interpretar as leis de forma a autorizar os robôs a machucar e mesmo matar humanos, se tais atitudes resultarem em um bem maior para a humanidade. Manuel seria uma V.I.K.I de carne e ossos? E nós humanos andamos ou não precisando de uma V.I.K.I., já que parece que não conseguimos de modo algum avançar por conta própria de nossa eterna adolescência civilizatória?

O comunicado preliminar, no qual a humanidade toma ciência das seis intervenções que virão com as próximas seis semanas, termina informando que “aconselha-se que todos se preparem para mudanças significativas em seu modo de vida. Não há razão para pânico. A médio e longo prazo, as mudanças beneficiarão a maioria das pessoas”. Estas palavras, além de disseminar o pânico entre a população, aproximam Manuel da mente cibernética V.I.K.I., que percebeu quase que se imediato que para se fazer um belo omelete é necessário quebrar alguns ovos. E outra: e quanto àqueles que não se encaixarem nas mudanças significativas aplicadas em tão pouco tempo? Além disso, se elas beneficiarão a maioria, mas não a totalidade da população, como não haveria razão para pânico? Se eu me enquadro no grupo que não será beneficiado pelas mudanças, o pânico é meu amigo e companheiro a partir do momento em que eu perceber que as mudanças são mesmas pra valer. Mas Manuel não quer saber. Como já foi dito neste pequeno ensaio, não cabe recurso às intervenções. E ainda que soem como uma utopia ditatorial, elas serão benéficas para a grande maioria dos adolescentes mimados que vimos nos tornando desde que eliminamos as principais ameaças à saúde e a miséria nos grandes centros. Manuel apresenta e aplica suas mudanças sem pensar na opinião alheia, no politicamente oportuno ou nas consequências para aquela minoria incorrigível. Manuel se tornara um especialista em comportamento humano e, como tal, deve agir, já que dispõe dos meios. Mas a motivação pessoal de Manuel em um determinado ponto se torna realmente perigosa.

O garçom economista (ou seria o economista garçom) escreve para reencontrar a filha, mas Manuel precisa também de uma vingança pessoal: “escreve também para matar os assassinos da sua mulher, esses ele sabe muito bem quem são”. Como não consegue escrever sobre a filha, “dedica-se então a escrever os capítulos de modo a preparar o assassinato dos assassinos”. Manuel determina a transformação de todos os crápulas em estátuas de vidro, “todos os autores de crimes hediondos – ou depravados, viciosos, sórdidos, imundos, como preferirem”. Entretanto, uma dúvida atravessa a mente de Manuel e ele precisa repensar sua determinação. Como saber quais daqueles que cometeram tais crimes se arrependeram ou se arrependerão? Quais eram de fato maus, quais eram apenas fracos colocados em um beco-sem-saída? Como solucionar este impasse? A população espera a sexta e derradeira intervenção. Como Manuel vencerá o lugar-comum da pura e simples vingança?

Afinal o que está em jogo é a própria essência do animal humano. Se pretendemos limpar a humanidade de toda a imundície moral, qual seria o critério mais adequado a ser usado? Qual seria a linha de corte? Onde acabariam os crimes comuns e começariam os hediondos? Além disso, o que impediria o nascimento de novas gerações de criminosos hediondos após o assassinato dos atuais? É preciso que ocorra uma mudança moral interna em cada ser humano, se quisermos sobreviver. De nada adiantarão todas as intervenções exteriores se não houver uma mudança interna. E isso não pode ser feito por um interventor. A mudança interna só é possível se genuína e só pode ser genuína se compreendida, não imposta. Manuel encontrará refúgio na filosofia, e é um alívio para ele e para nós que a solução não tenha vindo por meio de dogmas religiosos ou de convicções políticas, que são sempre excludentes, pois convicções e dogmas nunca conseguiram alcançar a todos. É um alívio também que ela não tenha sido resultado de consensos técnicos ou evoluções tecnológicas, sempre provisórios. A resposta para Manuel está num daqueles momentos elevados que só a filosofia pode nos proporcionar, aquele momento em que o ser humano mostra com todas as forças seu lado sublime. Não podemos dizer que Manuel esteja alegre ou feliz. Talvez ele esteja apaziguado com a humanidade.

 Em: Comoções literárias. São Paulo: Annablume, 2014.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com