A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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MONTE VERITÀ
Aline Lacoski, Elza Rodrigues, Laiane Hulse & Larissa Ortega

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É por meio da arte que o ser humano cria, pratica a sua imaginação, expressa ou transmite suas impressões. As diversas manifestações da arte suscitam interesse ou comoção, desprendimento ou repugnância tocando nos sentimentos mais íntimos do seu receptor. “A arte é uma reduplicação da vida” (BACHELARD, 2003, p. 17), por isso possibilita ao homem viver coisas novas.

Sendo superior à própria vida, a arte não pode ser definida de forma lógica, teórica ou única. No entanto, promove a possibilidade de ser vivenciada. Para tanto, a arte compreende signos polivalentes e, dentre as suas diversas manifestações, a que se serve da expressão verbal é a literatura.

Desde sua origem, a literatura está condicionada à produção escrita, o que pressupõe um documento destinado à leitura. É por meio da leitura que o homem vive e vivencia a literatura a cada dia.

A criação do texto literário encontra sua base na escrita, quando o autor seleciona palavras, constrói temas e organiza a narrativa de forma peculiar para expressar fatos cotidianos e pensamentos da humanidade. Para Barthes (1996), o texto é organizado pelo escritor e, posteriormente, pelas inferências do leitor.

Eco (1991) expõe que a obra somente existe em movimento pelo leitor. O autor apenas guia o leitor pelo texto, onde também deixa brechas/pistas para que o leitor possa seguir além do que está dito. Ao ler, o leitor alimenta a própria imaginação e leva a obra ao inesgotável. Assim, o leitor colabora na produção de sentidos da obra.

Barthes (1996, p. 82) entende o texto literário como um “tecido”, o qual se reproduz num entrelaçamento contínuo. Imerso nesta rede, o leitor constrói novas ideias a partir do diálogo contínuo com o texto, apreendendo o mundo em profundidade. Dessa forma, depreende-se que a literatura, além de constituir uma forma de comunicação, compreende a ligação do mundo exterior e do mundo interior, pois possibilita a capacidade de percepção de si mesmo e do mundo.

De acordo com o tipo de adversidade que uma narrativa procura solucionar, a natureza fictícia possibilita ao leitor capacidades múltiplas. Assim, “o texto literário é uma figura fictícia” (ISER, 1996, p. 101) que necessita de atributos reais. Embora sejam polos opostos, a ficção informa algo sobre a realidade.

Sob o mesmo aspecto, Eco (2002) explica que as referências do mundo real estão estreitamente ligadas à ficção, causando, assim, a aproximação desses campos. Logo, o leitor mistura os elementos vivenciados na ficção à sua realidade. Além disso, a literatura, para Candido (1972), também tem a incumbência integradora ou humanizadora, que representa uma realidade social e humana.

Neste contexto, a multissignificação é um dos pontos fundamentais do texto literário, pois possibilita ao leitor fazer múltiplas leituras de uma mesma obra. Segundo Bloom (2001), o leitor lê em busca de prazer e satisfação de interesses pessoais. A fórmula da leitura, então, é “encontrar algo que nos diga respeito, que possa ser usado como base para avaliar, refletir, que pareça ser fruto de uma natureza semelhante à nossa e que seja livre da tirania do tempo” (BLOOM, 2001, p. 18). Torna-se necessário, assim, refletir em que sentido a obra literária diz respeito e se vai ao encontro das aspirações do leitor.

A recepção de uma obra literária implica a reconstrução de sua produção. Os valores emocionais, a significação estética dos elementos formais e os critérios da função social de uma obra mudam ao longo do tempo. Eagleton (2001) discorre que importa como o leitor vê a obra e como ela age em cada sujeito, com conhecimentos de mundo particulares. Assim, a obra é atualizada a cada leitura.

Na mesma perspectiva, Compagnon (2001) explicita que o leitor adquire conhecimento e experiência com a literatura, visto que “a subjetividade moderna desenvolveu-se com a ajuda da experiência literária, e o leitor é o modelo de homem livre” (COMPAGNON, 2001, p. 36). O teórico afirma ainda que o leitor integra-se ao que leu e não é o mesmo de quando iniciou a leitura, pois atingiu a essência da obra literária e transformou-se. Neste sentido, nenhuma leitura pode ser final, acabada ou engessada. Toda leitura, de forma recíproca, exige do leitor informações sobre a criação do texto, do autor, do contexto histórico e do vocabulário específico.

Nessa perspectiva, o propósito deste texto é apresentar uma síntese da obra Monte Verità, gestada por Gustavo Bernardo, a partir da ótica de que a leitura da literatura incita os sentidos, a percepção, os afetos e a razão do leitor, o qual é atraído para responder as lacunas deixadas pelo discurso. Desta forma, o leitor é deslocado do seu lugar comum para outro contexto, para visualizar novas coisas, pensar diferente e conhecer particularidades.

Gustavo Bernardo Galvão Krause, nascido no Rio de Janeiro em 1955, leciona Teoria da Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e escreve romances, ensaios e poesia. Quando aprendeu a ler, se encantou com os personagens e com o tempo acabou largando a carreira de engenheiro para cursar Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC/RJ (1974-1977).

A motivação para escrever Monte Verità veio de um congresso que Bernardo participou num hotel exatamente com este nome, na Suíça. Lá realmente havia um garçom negro que falava diversas línguas, inclusive em português. O livro contém 22 capítulos e se destina ao público infanto-juvenil. Com 101 páginas, a obra interage com o leitor, por promover intervenções na realidade. Cabe destacar que a literatura implica pensar nos limites existentes entre a ficção e a realidade. Candido (1972) expressa que a literatura não compreende apenas a própria estrutura, pois busca atender e fomentar as expectativas de ficção e fantasia do homem, tanto do que produz quanto do que recebe. Essa fantasia está continuamente relacionada à realidade do leitor no ato da leitura, porque a literatura tem a função integradora e transformadora dessa realidade. Dessa forma, o leitor interage com a leitura, se reconhece e modifica-se; esse processo possibilita uma nova visão sobre a realidade.

Publicado em 2009, no Rio no Janeiro pela Editora Rocco, o romance faz parte da "Trilogia da utopia" de Gustavo Bernardo, contemplada pelos romances O Mágico de Verdade (2006) e Nanook (2016).

Bernardo inicia Monte Verità relatando a história do personagem Manuel, um homem negro, que tinha como companhia uma arara-verde. Emigrante e refugiado da guerra de Moçambique na África, economista e poliglota, que se tornou garçom no famoso hotel Monte Verità, na Suíça. O garçom servia pesquisadores que participavam de vários congressos internacionais, surpreendendo a todos quando se dirigia no seu respectivo idioma. 

Numa manhã de domingo, na África, Manuel estava estudando, quando sua esposa e filha foram à igreja, logo após, o mesmo ouviu barulhos de tiros e se dirigiu até o local, quando chegou, constatou a morte de todos, inclusive de sua mulher, tendo sua filha como única sobrevivente. Passado um tempo, após tentativas mal sucedidas de justiça, fugiu ameaçado de morte, obrigado a abandonar a filha.

De acordo com o autor, Manoel escrevia para reencontrar sua filha e fazer justiça contra os assassinos do massacre. Com isso, ele propõe seis intervenções para a sociedade, com drásticas imposições, as quais acontecem em sete domingos seguintes, anunciadas em todos os meios de comunicação mundiais, no mesmo horário e no idioma de cada país.

O primeiro domingo tem o comunicado preliminar que orienta a população para mudanças que estão por vir e não criar pânico, pois tais mudanças beneficiaram a maioria. A partir desse momento, todos entram em estado de choque, questionando-se de quem poderia ser aquela voz mecânica e andrógina, onipresente. Apocalipse? Alienígenas? A origem de tudo é desconhecida.

No segundo domingo ocorre a primeira intervenção que compreende o desaparecimento de todas as armas e meios de destruição do planeta, formando um globo de armas no espaço e que permaneceria lá, até a próxima quarta-feira quando explodiria. O comunicado avisa que no mundo terá a existência somente de armas brancas, com a condição de não machucar nenhum animal, incluindo o animal humano. Além disso, qualquer tentativa de fabricação de outro tipo de arma seria inútil, pois assim que estiveram prontas, explodiram.

No próximo domingo, no mesmo horário, como programado, a segunda intervenção informou que todas as mulheres se tornariam estéreis durante dez anos; após esse período, por exatos duzentos anos, a espécie humana poderia se reproduzir somente uma única vez. Depois de duzentos e dez anos, poderia se reproduzir novamente por apenas duas vezes. Assim, a narrativa demonstra o controle demográfico da população.

A terceira intervenção se resume em uma limpeza de toda a poluição ambiental; todos os tipos de dejetos formam “um globo de merda”, indo em direção ao espaço, que poderia explodir a qualquer momento. Uma chuva fina cairia para lubrificar o ar e limpar os gases poluentes.

A quarta intervenção, proposta por Manuel, retoma o comunicado anterior, anunciando que o cometa se explodirá, se transformando em algo inimaginável. E ainda avisa que dentro de sete anos, o petróleo sumirá e o carvão vegetal não poderá ser usado para combustível. O homem, ser racional, teria, então sete anos para pensar em novas possibilidades para substituir o petróleo. Com a explosão do cometa, a cidade do Rio de Janeiro é a primeira a ser atingida com neve, para espanto de todos.  É relevante destacar que a humanidade, acostumada à poluição, sente-se estranha ao respirar um ar tão limpo e puro.

Quando a quinta intervenção é anunciada, no domingo seguinte, acontece uma revolução dos animais: todos se libertam de seus donos e fogem. Os humanos se veem numa mudança de hábitos alimentícios, pois se alimentar de carne é praticamente impossível. Conforme o narrador argumenta, o homem é responsável sozinho por milhares de extinções de espécies. Manuel planejou dar uma chance aos bichos de se defenderem da sua pior ameaça, o ser humano.

Na sexta e última intervenção o autor dos comunicados afirma não ser nenhum tipo de Deus, além disso, dispensa qualquer tipo de adoração e altar que for criado em sua homenagem. O narrador ainda especifica duas regras de conduta, que refletem “à busca da felicidade”. É necessário lutar pela felicidade e não somente ser digno de tê-la. Não tentar ser feliz dependendo da infelicidade de outro. O narrador acrescenta ainda que, ninguém pode controlar isto, talvez nem quem escreveu os comunicados.

O economista e narrador da obra, mesmo podendo ter escolhido uma drástica alternativa, rasurou diferentes finais à narrativa, um bom e um alegre, outro não tão bom assim, mas optou por mudar o modo do homem agir adiante os problemas sociais e ambientais. Observa-se que a narrativa pretende devolver a obrigação ao/do leitor viver e intervir no mundo, por meio das mensagens. Não há nenhuma punição para quem fizesse o contrário. Com isso, definiu que última intervenção é a melhor solução.  No fim daquela noite, Manuel escuta a voz mecânica e andrógina no rádio do cozinheiro do hotel, feliz ou apenas satisfeito. 

Gustavo Bernardo conclui a obra destacando que todas as intervenções propostas pelo garçom são reflexivas, tanto como as armas desaparecerem, tornando todos frágeis e como consequência, a união da população e a diminuição de guerras e destruições por falta de poder. Ou modificar a genética dos animais para se defenderem dos seus predadores e não ter extinção e maus tratos de nenhuma espécie. É como se dissesse aos leitores: agora é com vocês! Aprendam! E para que isso aconteça é preciso não idolatrar, não adorar, nada. Nem ninguém. Principalmente nos tempos atuais.


Referências Bibliográficas

BACHELARD, G. A poética do espaço. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BARTHES, R. O prazer do texto. Tradução J. Guinsburg. 4.ed. São Paulo: Perspectiva,1996.
BERNARDO, Gustavo. Monte Verità. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
BLOOM, H. Como e por que ler. Tradução José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
CANDIDO, A. A literatura e a formação do homem. Ciência e Cultura, São Paulo, 24 (9): 803-9, 1972.
COMPAGNON, A. O Demônio da Teoria. Literatura e Senso Comum. UFMG: Belo Horizonte, 2001.
EAGLETON, T. Teoria da Literatura: uma introdução. Tradução Waltensir Dutra. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ECO, Umberto. Obra Aberta. 8 ed. São Paulo: Perspectiva, 1991.
ISER, W. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução de Johannes Kreschmer. São Paulo: 34, 1996.




disciplina de Leitura e Produção Textual
ministrada pela professora Adriane Cherpinski
Curso Interdisciplinar em Educação do Campo
Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS)
 setembro de 2016

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com