A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Nanook


   
NANOOK

Giselle Maria



Finalmente, entre muito trabalho, dores e decepção política, encontrei a mistura de tempo e disposição para te contar o que achei de Nanook, esse romance branco, gelado e forte que andou, contraditoriamente, descongelando minha zona de conforto, coisa que todo bom romance deve fazer.

“De dentro da razão, a loucura. Da loucura, o espanto. Do espanto, a revelação”. Eu, ousadamente, acrescentaria a esse trecho inicial de Nanook o seguinte: “Da revelação, a fé”. Porque para mim é disso que trata esse romance – a fé como firme fundamento do que não se vê, como já disse o autor de Hebreus. Ou, antes (ou depois?), a desconstrução da fé apenas no que vemos, apenas no que conhecemos, a fé no que podemos mensurar. A não-fé.

Pois não é a fé de Homem Siqueira que o leva à inicial confiança na ciência que estudou? A mesma fé que se desconstrói como um boneco de neve diante do calor ao encontrar Bernardo, esse personagem/autor que tem na linguagem fugidia, na linguagem que se quer segredo e silêncio, mas que, de repente, se mostra força, transe, poder; enfim, que tem na linguagem que se guarda o segredo da estória. A língua que Bernardo personagem fala é a língua que Bernardo autor conhece bem: a língua da ficção, ficção que pode contestar tudo, que deve duvidar de tudo para, assim, reconstruir caminhos.

Caminhos de uma Minas Gerais, com suas muitas igrejas, marcada pelo catolicismo de um povo. Caminhos de personagens femininas que são, em si, retratos discursivos que se embolam com a própria ambientação do romance: a Bruma fria dessa Minas que se congela de repente; a força Úrsula dessa Minas que (felizmente ou infelizmente?), só ela, pode receber quem está chegando.

E quem está chegando? Nanook. Prenunciado pela pele, pelo sangue de Bernardo, porque sem derramamento de sangue não há remissão, como bem disse Paulo. Mas Nanook vem para remir? Remir Ramon, o professor capaz de revelar a profecia sem o encanto religioso, apenas com a revelação do conhecimento? O saber, o conhecer seria um tipo de fé? As perguntas se multiplicam a cada página do romance, este que cumpre uma necessidade da ficção: o despertamento.

Mas que discernimento, para continuar usando termos que combinam tão bem com essa estória, temos para definir os limites da nossa não-fé? Cachorros brancos, temperaturas abaixo de zero em cidades tropicais, meninas famintas, ursos polares que descem do céu, pregadores ferozes e um jesus descrente. Nesse vasilhame gelado (não caberia dizer caldeirão), Bernardo autor, você, não só brinca com essa não-fé, como joga aos lobos o próprio sentimento cético: Nanook existe, se não para remir, ao menos para fazer cumprir o fim de todos: para nos ver morrer “De frio. De medo. E de vergonha”. Nós, que cremos e que não cremos.

Não me estenderei mais porque se o faço conto o livro inteiro, rsrs. Mas tenho que dizer, para terminar, que a cena da chegada de Nanook, gerou em mim uma vontade imensa de gritar. Sim, gritar, não confessar nada, gritar. Gritar minha fé aos quatro cantos. Gritar meu desejo de seguir adiante. Gritar minha não-fé nessa política nojenta. Gritar meus defeitos e meu mau coração. Gritar, a todo pulmão, com toda força branca e gelada que pode haver em mim:

Ora vem, Nanook! Inunda esse lugar, cobrindo a nossa vergonha!


Rio de Janeiro, 28 de abril de 2016
e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com