A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Nanook


   

NANOOK

Pedro Henrique

 

Em www.portalcaneca.com.br, 18/06/2016

portal caneca

Nanook é, antes de tudo, um livro bem surreal. 

Escrito por Gustavo Bernardo e lançado pela Editora Rocco sob o selo Jovens Leitores, Nanook trata de eventos aparentemente sem conexão, mas que, ao fim da história, se mostram parte de um grande quebra-cabeças cataclísmico e sem precedentes. 

É um livro que pode ser visto como uma verdadeira metáfora da sociedade moderna, dos conflitos entre o materialismo da verdade científica e a subjetividade da natureza humana. Não é um livro que se permita ler apenas como um passatempo, ainda que, invariavelmente, você não perceba o tempo passar durante a leitura. É uma história tão imersiva que, por vezes, você acaba se confundindo com as próprias personagens, infiltrando-se na narrativa como se você fosse parte da própria narrativa.

E é! Gustavo Bernardo criou um enredo que estabelece um diálogo constante entre narrador, personagens e leitor. E não digo isso de forma metafórica: por vezes, a própria história se dirige explicitamente ao leitor, incluindo-o na narrativa. E isso é bem legal porque, como disse, faz com que o livro se torne bastante imersivo para o leitor. E para além de como o narrador se dirige ao leitor, as próprias personagens parecem dialogar com quem está do outro lado do livro, transformando a realidade ficcional numa realidade concreta.

Eu comecei a ler Nanook no início do pico de baixa temperatura que que tomou conta do país no início de junho desse ano. Óbvio que isso foi obra do mero acaso, mas considerando a história do livro, tornou as coisas um tanto quanto mais fantásticas. Veja bem, Nanook trata da ascensão do que parece ser uma grande, nova e avassaladora Era Glacial que assombra o mundo moderno. Isso vem precedido do desaparecimento de um certo animal em todos os lugares do mundo e da queda brusca da temperatura em lugares antes conhecidos pelo intenso calor. E quem aí não se lembra dos 8°C que fez em algumas regiões do Rio de Janeiro? Sem contar outros lugares do país que tiveram temperaturas mais baixas.

Pois bem, Nanook tem como seu protagonista o Dr. Homem Siqueira, um psiquiatra renomado da cidade de Ouro Preto, Minas Gerais. Dr. Siqueira começa sua história recebendo em sua clínica (de nome A Clínica, diga-se de passagem), um novo paciente, de nome Bernardo, filho de Dona Bruma. Bernardo é um jovem de 15 anos a quem sua mãe considera como anormal pelo fato de ter começado a falar apenas aos quatro anos de idade e numa língua completamente indistinguível.

“Qanniq aputi quiquiquetaaaluque” – dirá Bernardo, pela primeira vez, aos quatro anos.

É então que o primeiro “incidente” acontece. Durante a entrevista de triagem que Dr. Siqueira faz com Dona Bruma, Bernardo tem um ataque de fúria e quase destrói a Clínica de Dr. Siqueira para avisar que “Nanook está chegando”. A partir disso, Dr. Siqueira decide que, de fato, Bernardo não parece ser um menino normal e o interna em sua clínica.

Paralelo a isso, a temperatura vai baixando em Ouro Preto, de modo tão anormal quanto poderia ser enquanto, no resto do mundo, os tais animais seguem desaparecendo dos zoológicos e de seus habitats naturais. Ao mesmo tempo, lá em Ouro Preto mesmo, vão aparecendo estranhos cães brancos, de uma raça que Dr. Siqueira jamais conheceu (não que ele conhecesse alguma raça de cachorro) e ele começa a suspeitar de que esses cães sejam, na verdade, alguma alucinação muito estranha.

A história se desenvolve a partir disso com uma série de eventos aparentemente desconexos e inexplicáveis. Mais cachorros-brancos seguem aparecendo em Ouro Preto, enquanto a temperatura desce cada vez mais. Enquanto isso, Bernardo segue dizendo coisas sem sentido até que, com a ajuda de seu amigo e professor Ramon, Dr. Siqueira descobre que seu mais novo paciente parece achar que é um arauto de uma divindade Inuit de nome Nanook.

Dr. Siqueira é um homem tomado pelo ceticismo que sua ciência lhe exige e, por conta disso, trata Bernardo como um paciente psiquiátrico qualquer. Porém, seu ceticismo parece ruir aos poucos, conforme as loucuras de Bernardo se tornam cada vez mais concretas e espantosas.

Não direi como a história segue, daqui por diante. A dúvida deve ser o suficiente para instigar, no leitor, a vontade de conhecer a conclusão deste livro. Mas posso dizer que esta é uma história que nos convida, a todo momento, a uma reflexão sobre nossa existência, nossas ideias e loucuras.

Óbvio que tem alguns pontos que eu considero um pouco incômodos. Um deles é a romantização que o livro faz do autismo. Ainda que, de fato, não devamos ver esse transtorno do comportamento de forma incapacitante, não sei se romantizá-lo ajuda a vê-lo de forma mais humana. E isso me incomodou um pouco na história, pois a todo tempo o Dr. Siqueira parece tratar o autismo como uma coisa essencialmente boa, perfeita, quando a realidade se mostra diferente, desconsiderando toda a complexidade que a vida e o convívio com autismo pode ter. 

Mas, romantismos à parte, a história segue de modo tão envolvente e misterioso que sua leitura transcorre sem que se perceba o tempo passando ao redor.

Dito isso, fica meu convite a vocês, amiguinhos canequenses. Vamos ler Nanook porque, antes do que imaginam, Ele está chegando!


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com