A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Nanook

    

NANOOK

Flávio Carneiro

 

Fala, meu amigo.

Olha, terminei hoje de ler seu livro e quis logo te escrever, movido ainda pelo espanto. Achei muito bom! E estranhíssimo. Até o dia da nossa conversa na UERJ, no lançamento do livro, vou formular melhor minha estranheza. Por enquanto, e no calor (literalmente, porque o Rio, ao contrário da sua história, continua muito quente) da hora, diria que essa estranheza toma forma por conta de:

1) O enredo em si. Tudo se anuncia desde o início, desde o título e da advertência feita pelo narrador. Ainda assim me (nos) surpreende, seja pelo suspense (a identidade de Bernardo, os cachorros brancos, o sumiço dos ursos etc), seja pelo que se pode esperar como desfecho para o psiquiatra, Homem. Como ele vai acabar no final da história, me (nos) perguntei (perguntamos) a cada página. Seja, ainda, pelo que possa ser decifrado, das palavras misteriosas, pelo amigo professor de linguística. Ou pelo que possa vir a ser o papel desempenhado pela mãe e pelos irmãos de Bernardo, que aparecem no início (os irmãos apenas citados, a mãe em presença) e meio que somem, o que desperta no leitor, pelo menos neste, a curiosidade: quando e como vão voltar?

2) A relação com o discurso religioso. Muito boa a sua caminhada na corda bamba. Como um bom trapezista, o livro caminha firme e titubeante. Oscila e não cai. Mas oscila, muito, pra lá e pra cá. E a essa oscilação acho que não é exagero chamar pelo nome: a boa e velha ambiguidade. Às vezes parece quase uma exaltação do cristianismo, às vezes justamente o contrário disso. O velho urso Gustavo, cético. Nesse tópico, frase que um dia usarei como epígrafe pra alguma coisa: “Deus não precisa fazer sentido” (p. 99);

3) O narrador. A grande estranheza. E não pelo fato de o narrador se assumir como parte da trama, e colocar o leitor nessa trama – isso de colocar o leitor como parte da trama remete de certo modo aos outros dois livros da trilogia –, mas sobretudo pelo fato de que se espera, ao final, que ele finalmente revele sua identidade. E ele não revela! O que, para algum tipo de leitor, pode ser uma frustração, pra mim foi uma grande sacada. Eis aí a estranheza das estranhezas. Rica estranheza, um presente aos seus leitores.

Li o livro de enfiada, sem querer largar e só largando quando não tinha mesmo jeito. Li, digamos, em duas sentadas (ou deitadas, ou inclinadas de sofá). Como nos dois anteriores, você consegue passar o recado – da nossa grande vergonha, do nosso desastre como habitantes de um belíssimo planeta – sem ser nem um pouco panfletário. Parabéns!

Outras três coisas que ligam os três livros. No estilo: a intertextualidade (para fora), a metalinguagem (para dentro e para fora). Na proposta: a relativização do conceito de verdade.

Claro, isso sem falar no fantástico, conduzido ao modo Kafka (a “naturalização do sobrenatural”, na velha definição de Todorov).

Por enquanto é isso, camarada. Gostei muito, valeu! Olha, acho que você tem futuro, viu? Rs.

Abração!

Rio de Janeiro, 4 de janeiro de 2016.


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com