A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Nanook


   
NANOOK

Tatiane Schilaro Santa Rosa


- I -


Feliz dia internacional do urso polar!, atrasado.

Enfim, li Nanook faz uma semana, no meu spring break e adorei, claro. Uma das minhas frases preferidas é: "O apocalipse se confirma na manhã em que não se pode comer um pão de queijo." Para mim, o apocalipse é uma constante, nesse sentido.

Também gosto da velhinha, e dos "cachorros," mas estava esperando que eles falassem! Ótimas as menções a Flusser. Muito bom ter lido essa sua outra ficção de deus, em que o deus Homem se curva de volta à "natureza."

Me diverti e me emocionei várias vezes: achei o fim uma linda homenagem. Tudo de bom. Parabéns!

Uma pergunta, (se é que posso me atrever), por que eles estavam andando de costas? É como se voltassem no tempo, antes da invenção da "Igreja," e/ou você estava aludindo a alguma passagem específica da literatura?

Aliás, uma segunda pergunta: e quem seriam as meninas de olhos brilhantes?


- II -


Nanook
é muito relevante para as discussões que tenho visto aqui em Santa Cruz.

Devo dizer que estou um pouco saturada da narrativa do pessoal daqui, sobre catástrofes, desastres e distopias, sobre o antropoceno, etc. Mas Nanook é brilhante porque fala do conhecimento indígena, da psiquiatria tentando controlar "resíduos" da razão, da própria forma como o "Homem" cria narrativas para explicar o que não se pode explicar.

Nesse ponto, é significativo que as explicações venham através de Ramon, através do entendimento da língua: não do tentar entender o que vem antes do significado, mas criar e aprender novas linguagens, como Bernardo, para falar do que parece ser impronunciável.

Gosto também de como tudo ao redor do Homem está repleto de significados e no entanto ele criou um escudo ao seu redor para se proteger desses encantamentos, e como aos poucos ele volta a reconhecê-los, como as meninas e os lobos.

Por isso, Nanook é brilhante, porque lida com esses temas a partir de um reencantamento das coisas, não dando espaço para narrativas de desespero, ou de lamentos.

Pronto, aqui vai uma segunda leitura (da madrugada).

Santa Cruz, California, USA, 09/11 de abril de 2016
e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com