A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


o mágico de verdade

No trecho do romance O Mágico de Verdade, apresentado abaixo, ocorre um diálogo em que o protagonista demonstra conhecimento de muitas línguas. Esse diálogo, com "tradução simultânea", é apenas sugerido no livro. As versões em tcheco e em inglês aparecem somente nas primeiras frases de cada fala. Apresenta-se abaixo, no entanto, o diálogo integral e trilíngue. Para tanto, o autor contou com a ajuda fundamental de Eva Batlicková, para a língua tcheca, e Gisele de Carvalho, para a língua inglesa.

TRECHO
TRECHO ORIGINAL
Vamos lá. Prezada senhorita Sladká, boa tarde. Nosso Mágico de Verdade nos disse que a conhecia e à sua mágica – ou ilusão, como prefere chamar.  Ele disse, nesse momento, que a senhorita é uma excepcional ilusionista e artista. Por favor, poderia lhe fazer suas perguntas?

— Prezado Apresentador, boa tarde. É uma surpresa para mim que ele me conheça e a meu trabalho. De qualquer forma, eu lhe agradeço por suas palavras. Eis é a minha pergunta: ...

Por favor, Senhorita Sladká, poderia falar em tcheco?


— Ok. Senhor Mágico de Verdade, permita-me lhe dizer que fiquei chocada com a história sobre a sua mãe. Espero ardorosamente que ela não seja verdade, mas apenas uma ficção para comover e emocionar o público. Por isso mesmo, gostaria que me explicasse por que uma mulher nunca pode ser uma Mágica de Verdade. Talvez assim eu possa entender por que existem tão poucas mulheres no mundo fazendo mágica.


Let’s go. Dear Miss Sladká, good afternoon. Our True Magician told us that he knows you and your magic – or illusion, he prefers to call it this way. He said, in this very moment, that you are an exceptional illusionist and artist. Please, could you ask him your questions?

— Dear TV Presenter, good afternoon. It's a surprise for me that he knows me and my work. Anyway, I thank him for his words. This is my question: ...


Please, Miss Sladká, can you speak in Czesch?

— Ok. Pane Opravdový Čaroději, dovolte mi říci, že jsem šokována příběhem vaší matky. S bolestným napětím očekávám, že není pravdivý, nýbrž pouhou smyšlenkou k pohnutí a rozechvění publika. Z téhož důvodu bych ráda slyšela vaše vysvětlení, proč se žena nikdy nemůže stát Opravdovou Čarodějkou. Snad díky tomu porozumím i skutečnosti, proč na světě existuje tak málo žen věnujících se magii.
Hum, a pergunta dela parece boa, se a tradução que ouvimos está correta. Mas não é bem uma pergunta técnica, mas assim, digamos, uma pergunta... feminista, não? De todo modo, quero vê-lo respondendo em tcheco, meu amigo.

∞ A pergunta não é técnica, mas nem por isso menos interessante. Em português, inclusive, dizer “Mágica”, como feminino do Mágico, soa estranho. Temos os correlatos “maga”, “bruxa” e “feiticeira”, por exemplo, mas todos eles carregam uma conotação negativa. Em tcheco, o termo “Mag” também se utiliza apenas para os homens; para uma mulher que faz mágicas, usaríamos “Carodejka”, termo também presente no discurso amoroso, aí em sentido positivo. No entanto, a derivação “carodejnice” é pejorativa, o que vai reforçar a minha resposta. Mas me deixe responder à pergunta.

Ih, acho que ele sabe tcheco mesmo.


 Senhorita Sladká, agradeço muito a sua pergunta. Ela é muito interessante. Primeiro, deixe-me dizer que, infelizmente, a história da minha mãe é verdadeira. Ela tem relação indireta com a segunda parte da sua pergunta: por que existem tão poucas mulheres no mundo fazendo ilusionismo. Imagino que os homens, mais especificamente, os machos da espécie homo sapiens, mantenham ativado no fundo do cérebro um medo ancestral das mulheres: se elas são responsáveis pela mágica da vida, podem muito bem guardar consigo a mágica da morte. A relação entre homens e mulheres guarda um histórico de violência contra as mulheres, mostrando o tamanho do medo dos homens. Só quem se sente acuado ataca, violenta e mata, e o faz sem outra razão que a do seu próprio medo. Os conhecimentos científicos posteriores não eliminaram esse medo, apenas o soterraram. Por isso, na Europa de não poucos séculos atrás, muito mais mulheres foram queimadas, por feitiçaria, do que homens. Os homens têm pavor de serem seduzidos, ou seja, enfeitiçados pelas mulheres. A sedução provoca uma desestabilização da identidade porque, para amar e ser amado, é preciso ser diferente de si mesmo, é preciso tentar ser o que o outro quer que a gente seja. Essa desestabilização provoca medo, o medo vira ódio, que por sua vez se transforma em uma proibição: não me seduzirás, ou seja: não farás mágica com o meu coração. Ora, quando uma mulher, como a senhorita, resolve fazer mágicas ou ilusões, assusta todos os homens em volta. Se todo artista de verdade é por definição solitário, ouso supor que uma mulher como a senhorita se sinta mais solitária do que o usual.

—  Bela resposta, Senhor Mágico. Bela resposta. Talvez ela seja mais importante do que as suas mágicas. E, de fato, embora eu me considere muito respeitada no meu país, sinto-me profundamente solitária.
∞ Slečno Sladká, jsem velmi vděčen za vaši otázku. Je velmi zajímavá. Nejprve však musím s politováním konstatovat, že příbĕh mé matky je pravdivý. Nepřímo se vztahuje k druhé části vaší otázky: proč na světě existuje tak málo žen zabývajících se kouzly. Osobně si myslím, že lidé, přesněji, samci druhu homo sapiens, přechovávají  na dně svého mozku dávný strach z žen: jsou-li ony zodpovědné za tajemství života, mohou být stejně dobře i nositelkami tajemství smrti. Vztah mezi muži a ženami je historií násilí na ženách, která je odrazem velikosti mužského strachu. Jedině ten, kdo se cítí ohrožen, útočí, znásilňuje a zabíjí, a jediným jeho důvodem je  strach sám. Pozdější vědecké výzkumy tento strach nevylučují, pouze jej zakrývají. Proto bylo před pár staletími v Evropĕ upáleno pro čarodějnictví mnohem více žen než mužů. Muži mají hrůzu z toho, že by mohli být svedeni, jinými slovy, že by mohli byt spoutáni ženskou mocí. Svedení vyvolává destabilizaci identity, protože k aktu milovat a být milován je nezbytné stát se jiným, je nutné se pokusit stát se tím, kým nás chce mít ten druhý. Taková destabilizace vyvolává strach a ten se mění v nenávist, jež se ze své podstaty transformuje v zákaz: nesvedeš mě, neboli: neočaruješ mé srdce. Podívejte, když se slečna jako vy rozhodne dělat kouzla a čáry, nahání strach všem mužům kolem. A je-li každý opravdový umělec z principu osamělý, dovolím si předpokládat, že žena jako vy se cítí osaměleji, než je obvyklé.

—  Hezká odpověď, pane Čarodĕji. Hezká odpověď. Nejspíš daleko důležitější, než vaše kouzla. A pravdou je, že přestože se považuji za osobu ve své zemi váženou, cítím se hluboce osamělá.

Caramba, que conversa. Tentei mesmo me desligar por alguns instantes da voz dos tradutores de vocês, para escutar um pouco a música dessa língua tão diferente. Não entendi nada, é claro, mas gostei. Pareceu uma conversa do presente com um passado muito antigo, sei lá. Continuando o show, então, vou passar para o nosso Mágico de Verdade, dentro de alguns instantes, a pergunta do ilustre mágico português, o senhor Luís de Matos. Para nós, o português de Portugal às vezes é tão diferente do brasileiro, especialmente quando falado, que até parece uma língua estrangeira. O problema não deve ser tão grande para eles, como mostra a história do motorista de táxi que, em Lisboa, conduzindo dois brasileiros do aeroporto para o hotel, de repente pára o carro e pergunta: “diacho, que língua é esta que estais a falar, ó pá, que cá eu entendo tudo?”. He he... xi, contei uma piada de português para um português. Bem, vocês devem ter muitas piadas de brasileiro, não é mesmo? De todo modo, antes de dar a palavra para o senhor Luís de Matos, vou chamar alguns anúncios não dos nossos patrocinadores, como disse eles estão meio receosos, mas sim de alguns programas da nossa emissora nesta semana. Dá para a gente aqui no palco beber uma água, ou ir ao banheiro, quem precisar. O pessoal aí de casa pode fazer o mesmo, não se acanhe, todo mundo já está careca de saber qual é a programação da semana.

Vocês voltaram? Dona Maria, fez sua pipoca no micro-ondas? Que cheiro horrível de manteiga fica no apartamento todo, né não? ‘Tá certo, ‘tá certo. Ilustre Senhor Mágico Luís de Matos, por favor, a palavra é sua.

— Muito agradecido, Senhor Apresentador. É uma honra me encontrar cá no vosso programa e neste cidade maravilhosa, de que eu só conhecia de oitiva. Permita-me, antes de formular a minha interrogação para aquele que se intitula “Mágico de Verdade”, explicar que de fato temos muitas piadas de brasileiro, parte delas bem parecida; apenas troca-se a nacionalidade dos personagens. Onde vós falais “o português”, nós falamos: “o brasileiro”. Mas muitas das vossas piadas remetem a uma verdade: nós, portugueses, levamos as conversas para o pé da letra, deixando-os sem entender o porquê. Por exemplo: um brasileiro amigo meu conta cheio de graça a pergunta que ele fez para outro passageiro no avião da TAP – Transportes Aéreos Portugueses, como sabeis. Ao entrar no avião e perceber o bagageiro tomado por uma maleta enorme, tentou ser gentil ao perguntar para o passageiro que estava sentado: “esta mala é sua?” Ele queria perguntar, é de se supor, se podia mexer naquela maleta para melhor acomodar a sua própria. Como não perguntou exatamente o que queria perguntar, esta é uma mania de brasileiro, o passageiro, sim, respondeu apenas o que lhe foi perguntado, nos seguintes termos: “mas não, é da minha tia, que m’a emprestou!” Aí vós rides à socapa do patrício, sem notar, primeiro, que vós é que não perguntais direito, e segundo, que nós agimos assim por razões históricas. Séculos de Inquisição Portuguesa, depois décadas de ditadura salazarista, nos obrigam ainda hoje a dar respostas que não nos comprometem, que não mostrem o que pensamos lá no nosso íntimo. E a melhor maneira de não se comprometer é se apegar à letra, ou seja, à lógica mais estrita.

Caraca, fiz uma piada e tomei na testa uma lição de História. Perfeito, ponto para o amigo d’além-mar, empatou!

— Touché. Mas vamos à pergunta que me cabe. Ilustre Mágico de Verdade, de fato a vossa mágica se vem mostrando deveras impressionante. Colocar o Cristo Redentor sentado, pensando, é bestial. Além disso, pode ajudar a pôr um penso, ou, como dizem os brasileiros, um curativo nas feridas religiosas deste planetinha intolerante. Para nós outros, que seríamos tão somente Mágicos de Mentirinha, percebe-se um benefício adicional derivado de vossas mágicas, ao renovar o interesse público pelo ofício. Permita vos dizer, todavia, que ainda não acredito que vós sejais um mágico de verdade mesmo. No entanto, no íntimo, eu realmente gostaria que as vossas mágicas fossem verdadeiras: assim, o mundo do sonho voltaria a ser mais forte do que o da realidade. Por isto, a minha pergunta é esta: qual é para a Vossa Eminência Mágica o sentido da mágica, no mundo de hoje?

∞ Prazer em conhecê-lo, senhor Luís. Agradeço a sua pergunta, embora perceba que ela vem contaminada de uma certa irritação algo justificável, supondo que eu esteja desmerecendo o valor da sua arte. Pela parte que me cabe, devo dizer que se encontra longe de mim a intenção de desqualificar a arte dos ilusionistas, como procurarei demonstrar pela resposta à pergunta que me faz. Apresentar-me como Mágico de Verdade tem o objetivo exclusivo de distinguir meu trabalho do vosso, como diz: enquanto o trabalho dos senhores e da senhorita é uma arte da maior importância, o meu não é propriamente nem um trabalho nem uma arte, mas sim uma espécie de obrigação ou destino. Lembro-me sempre do que diziam os antigos estóicos: o destino guia quem consente nele, mas arrasta quem o recuse. Apenas, não recuso o meu destino. Sempre com medo de não estar à devida altura, consinto nele. Dito isto, ressalvo não me parecer importante que não acredite em mim. Importa antes seu desejo de que as minhas mágicas fossem verdadeiras, porque assim o mundo do sonho voltaria a ser mais forte do que o da realidade. Ao expressar esse desejo, ajuda-me a responder à sua pergunta sobre o sentido da mágica no mundo de hoje. Na verdade, não saberia determinar o sentido da minha mágica – isto poderemos todos avaliar melhor quando chegarmos ao fim desses programas – mas posso falar, sem pudor, do sentido da mágica dos senhores e da senhorita, isto é, das ilusões que promovem. Elas são importantes, sim, para ressaltar o mundo do sonho frente ao mundo da realidade. Não se sabe muito bem o que seja a realidade, mas do sonho podemos cuidar como nosso: isto significa que sonhar e provocar novos sonhos, como fazem os mágicos nos circos e nas festas, e os contadores de história à volta das fogueiras ou dentro dos livros, conforta o nosso coração e empresta sentido ao que fazemos aqui neste mundo.

Então, senhor Luís, o que achou da resposta do nosso Mágico?

— Bem, sou forçado a concordar com a minha colega da República Tcheca. O vosso Mágico dá boas respostas, além de fazer mágicas impressionantes.

Muito que bem. O pior é que nem o senhor e nem a ilustre Maga, se a posso chamar assim, com as suas perguntas, nos ajudaram a desvendar o segredo do Mágico de Verdade. Nossa última esperança é o espetacular David Copperfield, que já esteve no Brasil em outra oportunidade para mostrar as suas mágicas. Graças a meus dez professores particulares, “espicarei” em “inglixi” com o nosso convidado norte-americano.

Vamos nós. Prezado senhor David Copperfield, a palavra é sua.

— Prezado Apresentador, prezados espectadores brasileiros, obrigado e boa tarde. Minha pergunta é muito simples e muito fácil. Eu gostaria de saber de quanto é o pagamento do Mágico de Verdade neste concurso.

∞ Prezado Mr Copperfield, sua pergunta é não apenas fácil, mas, de fato, muito esperta. Como um homem do espetáculo, o senhor está tentando provar que tenho óbvios interesses humanos, logo, que o Mágico de Verdade pertence ao nosso mundo capitalista. Se isso é verdade, isto é, se o Mágico de Verdade precisa de dinheiro, então provavelmente a minha mágica não é verdadeira. Infelizmente para a sua tese, o Programa de Domingo não me paga nenhum tipo de cachê. O produtor imaginou que eu fosse um Mágico do interior, interessado apenas em fama instantânea. No entanto, eu não estou interessado nem em fama nem em dinheiro. Então, qual é meu propósito verdadeiro? Bem, essa já é uma outra pergunta, a qual, por enquanto, não posso responder.

Mr Copperfield, o senhor está satisfeito com a resposta?

— Naturalmente que não, Senhor Apresentador; mas estou muito impressionado.

Let’s go. Dear Mister David Copperfield, the word is yours.

—  Dear TV Presenter, dear Brazilian TV spectators, thank you and good afternoon. My question is very simple and very easy. I wish to know how much the True Magician is making in this competition.

∞ Dear Mr Copperfield, your question is not so easy, but, in fact, very smart. As a show man, you are trying to prove that I have obvious human concerns, so, that True Magician is a man from our capitalist world. If this is true, that is, if the True Magician needs money, then probably my magic is not authentic. Unfortunately for your thesis, the Sunday Show does not pay me a cent. The producer thought that I was a Magician from the country side, interested only in instantaneous fame. But I’m not interested in fame or money. So, what is my real target? Well, this is another question, which I can’t answer for the time being.

Mr Copperfield, are you satisfied with the answer?

— Of course not, Mr Presenter; but, I’m very impressed.




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