A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


o mágico de verdade

EXISTE UM MÁGICO DE VERDADE?

Flávio Carneiro

 

O que você faria se lhe oferecessem um milhão de reais para descobrir o truque de um mágico? Apenas o truque de uma das mágicas, feitas na televisão, você podendo contar com todos os recursos que puder lhe oferecer a mais avançada das tecnologias.

A resposta pode lhe parecer simples, mas ganha contornos imprevisíveis no novo livro de Gustavo Bernardo. E isso porque o tal mágico simplesmente não se deixa decifrar. Ou, melhor dizendo, desde o início ele adverte que suas mágicas não são truques e sim mágicas de verdade. O segredo, vamos percebendo aos poucos, não está na sua magia aparente mas noutra, que só nos é revelada ao final do livro.

Narrada com agilidade, humor e fina ironia, a história é um diálogo entre um apresentador de televisão e o mágico, convidado apenas para somar alguns pontos de audiência ao programa de domingo.

O patrocinador do programa oferece o prêmio em dinheiro a quem descobrir algum dos truques daquele mágico desconhecido (pinçado de um banquinho de praça no subúrbio de uma cidade qualquer), mas o que ninguém sabe é que o convidado não está ali para ser somente mais uma atração na telinha. Seu objetivo é outro, e sua atuação acaba provocando uma verdadeira reviravolta – na vida dos telespectadores, dos técnicos da emissora e do próprio apresentador.

Depois de fazer levitar todo o auditório (e o apresentador junto), o mágico parte para um empreendimento mais ousado, ao ar livre. E faz nada menos que uma mágica (se podemos chamar assim) genial: tira de seu pedestal a estátua do Cristo Redentor e a coloca sentada, com a mão no queixo, como na conhecida pose de O Pensador, de Rodin.

A cena, na engenhosa arquitetura do livro, não é gratuita. Ao propor a troca, a narrativa aponta para si mesma, deixando entrever sua aposta não na fé incondicional, na crença, mas no pensamento, na reflexão ou, melhor dizendo, na dúvida. É com a dúvida que se molda o enredo de O mágico de verdade, cujas peripécias nos levam sempre a perguntar: o que virá a seguir?

Construído como uma espécie de reescritura dos antigos diálogos socráticos – que não eram nem diálogos nem de Sócrates – a narrativa engendra uma verdadeira aula de filosofia no jogo da ficção. Se em Platão os diálogos eram apenas uma estratégia de sedução do leitor (ou ouvinte), de modo a impor a voz do filósofo sobre a voz do discípulo – daí serem mais monólogos do que verdadeiramente diálogos –, aqui ocorre algo diferente.

Cria-se, entre o apresentador e o mágico, um diálogo de verdade (para brincar com o título do livro), que se estabelece não apenas entre os personagens como também entre o livro e o leitor, convidado, também ele, a participar da festa. E como em toda boa aula, esta não parece aula.

E aí teríamos talvez o grande mérito de Gustavo Bernardo, o de ter encarado o desafio de misturar o que normalmente não se mistura, inserindo no palco da ficção a performance do professor,  ou do filósofo. O resultado, ao contrário do que se vê em muitas das narrativas para crianças e jovens, não é um livro chato, daqueles que buscam passar as malditas “mensagens” (marca visível das falsas ficções).

Pelo contrário, o livro é uma ficção autêntica, que se assume enquanto artifício, investindo no imaginário do leitor ao mesmo tempo que na sua capacidade de pensar. Como artefato ficcional, O mágico de verdade faz o que se espera dele: gerar prazer e dúvidas.

 O Globo, 13/01/2007



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