A ESTANTE


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"Naquela cadeira está a minha namorada, que veio hoje para assistir à minha atuação. Te ofereço este espetáculo como prova do meu amor. Ela tem os cabelos muito compridos e fartos, pretíssimos de pretos, lisos tocando as suas pernas. Sentada, seus cabelos ficam no colo. Olhos escuros e fundos me olham, me olham. O teatro está cheio, mas eu só vou representar para ela. Ela é linda, ela é pálida. Seu nome é Luna. Luna do meu céu, Luna do meu peito, veja o seu Pedro. Só vou representar para você, minha grega. Mas, o quê? A nossa história. Os ditadores do planeta se reuniram para prender e torturar o feminino de mim. O feminino de mim é uma mulher chamada Luna por mim, por muitos outros chamada: eternidade. Eu me desespero, não tenho mais nada a perder porque já perdi tudo quando te perdi para eles, e parto para te salvar ou morrer, armado da primeira espada que encontro e da força deste desespero. Atravesso entradas vigiadas, fossos encantados, portões eletrônicos, leões cibernéticos e políticos demagogos, mas, quando eu te encontro, você já morreu, Luna. Você já morreu e não está mais sentada nesta cadeira para me aplaudir. O teatro está vazio, pois é ridículo aplaudir a corrida de um fraco. O mundo não está nem na minha frente, pra eu dar um soco no peito dele. O mundo está bem aqui em cima, pesa como o inferno e me enterra até os cabelos no fundo do fracasso. O desespero não tem força nenhuma. Espadas não podem nada contra ditadores, multinacionais e ogivas nucleares. Espadas não podem nada contra o medo, a mentira e a covardia. Luna, eu te perdi de novo. Desde o começo eu te perco, desde o começo desta peça eu te perco! Ninguém escuta os meus gritos, ninguém aplaude ou vaia esses gritos. Nem chorar faz sentido, se não sei pra quem dar a aguinha que despenca do meu olho."