A ESTANTE


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PEDRO PENSA

Antônio Carlos de Mello

 

Eis um livro curioso, para não dizer inacreditável. Página a página, a gente vai constatando uma coisa simplesmente incrível: o autor, que é professor de redação e tem até livro publicado sobre o assunto, acredita firmemente que o adolescente (pasmem!) pensa. Pê-é-ene-esse-a.

Não, não há erro, é isto mesmo. O autor acredita que o jovem de hoje pensa, reflete sobre o mundo em que vive, procura soluções para seus problemas e os dos outros. O fato é que o Pedro, de sobrenome Pedra, de que trata o livro, pensa, e pensa muito e sobre tudo.

O que, antes de qualquer outra coisa, o livro parece nos dizer a todo instante é que por trás de toda essa dita ignorância da juventude, por trás de todos esses artigos que ridicularizam o jovem, reduzindo-o a seus erros de ortografia, há algo mais (além dos aviões de carreira, é claro!).

Pedro Pedra nos fala da construção de Pedro, pedra por pedra. Da pedra fundamental, do menino vendo/vivendo o mundo por detrás do portão da casa da avó, a Pedro Pedra, quando já é possível o amor-sexo, o sexo-amor, momento em que o Outro se revela e não é mais somente um espelho ou um fantasma.

Filho da classe média, pequeno-burguês confesso, Pedro Pedra luta para se desvencilhar da rede de mentiras e dogmas da Família, da Igreja, da Escola, do Partido. Uma luta que nos é contada por um narrador seguro e incisivo, que constrói tudo em períodos curtos, mas que não deixa de ser relaxado e bem-humorado, fazendo com que a gente acompanhe com interesse essa batalha, que é brasileira na realidade, mas universal no seu alcance.

O mais importante é que o autor desenvolve o Pedro sempre com o olho atento ao poema-lição de Drummond. As pedras do caminho de Pedro são sempre literatura e não o “ai meu deus” ao próprio umbigo que a gente encontra em tantos livros.

Se aqui e ali o autor se comove além da conta com seu Pedro, beirando o sentimentalismo, na maioria das vezes ele nos mostra com intenso lirismo (lirismo, e não babaquice!) e uma ternura não camuflada que a luta por um mundo mais justo é a luta pela descoberta do Outro e a subsequente certeza da necessidade da solidariedade.

Por isso tudo, Pedro Pedra, além de um livro importante, é gostoso de ler. E tem uma capa, de Paulo Chabo, belíssima, que consegue sugerir e instigar o leitor ao livro. Como se não bastasse, papou o Prêmio Altino Arantes, 1981, do Concurso Nacional de Literatura Juvenil da Biblioteca Cultural de Ribeirão Preto, São Paulo.


LEIA LIVROS, fevereiro de 1983