A ESTANTE


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UM ADOLESCENTE EM BUSCA DE SUA IDENTIDADE

Laura Sandroni

 

Primeiro lugar no Concurso Altino Arantes de Literatura Juvenil, promovido pela Biblioteca Cultural de Ribeirão Preto em 1981, Pedro Pedra, agora publicado, revela ao público um novo e talentoso escritor: Gustavo Bernardo.

O texto trata da adolescência, com suas dúvidas, angústias, desejos reprimidos e sonhos. Pedro que se quer pedra. Um jovem tímido como quase todos, apenas mais consciente da própria timidez e ferozmente empenhado em superá-la. Pedro que carrega a força de seu nome, rumo a ser seguido – “Sou Pedro. Não posso ter dúvida sobre nada. Eu tenho de ser a verdade da vida”.

Mas o que é a verdade para um adolescente? É no espelho que Pedro se busca e encontra a verdade de um corpo que cresce e faz-se homem. “Todo homem é seguro de si”. Mas onde está sua segurança? No quintal da avó, por exemplo. Protegido pelo amor, junto às árvores e seus brinquedos preferidos. Protegido pelo portão de madeira que o separa dos moleques que brincam no terreno baldio. Seu rosto cabe direitinho num buraco do portão: trincheira.

Na cama mergulha em si mesmo e cisma. Seus pensamentos vão desde a idéia da morte dos pais até a de sua própria morte: angústia. Na pedra surgem os sonhos de um futuro heróico: “Vou ao Nordeste e acabo com as secas” – esperança. A escola como um lugar onde se exercita a reflexão – “Sei não. Ler mais, quem sabe começo a entender”. A morte da avó é uma experiência dolorosa mas da qual sai fortalecido. Sente cada vez mais a necessidade de uma companheira com quem conversar e sonhar junto, “alguém que divida comigo as coisas”.

A narrativa se desenvolve em três tempos divididos em capítulos com títulos recorrentes. Ora fala o narrador, ora Pedro monologa. A identidade entre eles se quer total: “O que pensa Pedro? Será que ele se tocou? Se eu pudesse entrar na sua cabeça...” O autor, baseado em sua experiência de jovem professor e numa vivência ainda próxima, busca expressar os sentimentos de todos os Pedros do Brasil. Moços preocupados com o futuro, individual e coletivo, jovens que querem deixar-se enquadrar pelas instituições repressoras, alienar-se por um imposto, perder-se numa vida sem sentido.

Em linguagem coloquial, cheia de lirismo e de jogos poéticos, Gustavo Bernardo refaz o caminho de Pedro sem medo de enfrentar alguns preconceitos: olha pelo buraco da fechadura e descreve o que vê. Os poemas que precedem cada parte remetem a Drummond e Fernando Pessoa mas têm a força de uma visão original. Voltando aos mesmos espaços em três momentos sucessivos, o autor mostra a socialização necessária: a igreja, lugar de reunião é, num primeiro instante, onde se ouve, num segundo a sala de aula onde se reflete, num terceiro o grêmio onde se participa.

Desenvolvendo criativamente o seu discurso apoiado numa estrutura bem construída, Gustavo Bernardo realiza obra que lhe assegura, desde logo, lugar de destaque entre os ficcionistas contemporâneos.

O Globo, 07/17/1982.