A ESTANTE


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MEU CARO GUSTAVO

Luiz Antônio de Cássio Ferreira

 

Li o seu livro como se fosse uma carta. Foi bom rever você naquele mundo adolescente sem ser um intruso, muito à vontade. Eu, no discurso paralelo de leitor, experimentei o forte apelo à memória de toda a “carta”. Num sentido mais amplo, é claro, porque carta é impacto, de cara, na hora. Sua “carta” fez brotar tempos e espaços descontínuos – o meu passado adolescente, o meu lado adolescente, o meu passado próximo e assim...

Minha leitura ficou comprometida pela minha história atual e aquela “que insiste e resiste”. Pois é. Pedras que se chocam em busca de uma interpenetração difícil – impossível?

Esta fica sendo a minha experiência inicial com o seu romance. A influência direta é o conhecimento que tenho do autor. Seria provável receber uma carta sua. Veio o livro. Tornou-se carta.

Houve outras descobertas. O “Sumário” vale como um poema isolado ao mesmo tempo que é a chave da narrativa. Pedras espalhadas pelo caminho, mas se unificando (ou se identificando) no Pedro final.

A forma de aprimorar as reflexões atabalhoadas do adolescente – coisa muito séria. Você acertou, no tom exato, aquele estado meio de delírio e de cruel realidade em que a personagem vive. Estado de todo adolescente. A gente que conviveu com eles, sabe. A gente que é um deles, ainda: lutando para organizar num sistema harmonioso os sinais “de aqui de dentro” com os “de lá de fora”. Chutando pedras e sendo uma delas e vai aí um círculo de círculos concêntricos... A unidade – a pedra do centro – é o encontro ou o desencontro consigo mesmo.

Outras descobertas. Fascinante a pintura de uma certa vida brasileira – a descrição da casa do subúrbio, certas citações de comida, a TV. A cena da masturbação é a mais amada. Poderia continuar e continuar.

Também seu livro é bastante didático; fique certo de que eu gostaria de trabalhar com ele. A palavra “didático” como se fosse uma palavra carregada de significado. Uma palavra bonita. Também gostaria de ver seu livro transformado em filme. Valeria. Por enquanto ele é uma carta. Uma extensa e ardilosa carta que você me enviou e com a qual me senti muito honrado.

Gustavo, eu continuo aquela pessoa arredia de sempre. Leia nas entrelinhas – se faltou clareza – o muito-tudo que eu gostaria de ter escrito. Há ainda – e como! – Paris, amigos, ruas, cinemas, vinhos & queijos; perplexidades, angústias, tudo para ser feliz.

Cássia está com otite e Cashy está dormindo. Escreva-me. Um bom verão.

Paris, 30/11/1982.