A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


quixotescas

DOM QUIXOTE E AS RELAÇÕES ENTRE FILOSOFIA E LITERATURA

Rafael Haddock-Lobo

 

É bem provável que poucos de nós tenham lido Dom Quixote da Mancha, mas muitos nos prometemos um dia ter fôlego para enfrentar as milhares de páginas do melhor romance de todos os tempos. No entanto, todos conhecemos a figura do cavaleiro com a bacia na cabeça, que enfrentava inimigos fantásticos, acompanhado de seu companheiro gorducho. Isso devido à proliferação de estórias resumidas deste, entre outros, clássico “para jovens”, subestimando a inteligência da juventude e estimulando a leitura superficial e preguiçosa, que pode, ainda por cima, culminar em falsa erudição.

Após a enxurrada de homenagens ao quadricentenário da obra de Miguel de Cervantes, chega ao público Verdades Quixotescas, de Gustavo Bernardo, escritor e professor de teoria da literatura na UERJ. O livro, que não se destina apenas aos especialistas, parte da promessa de mostrar “como o ceticismo nos leva ao quixotismo e como o quixotismo nos devolve ao ceticismo”. Mas que se acalme o leitor, pois a obra não exige pré-requisitos, só a (boa) vontade de ler, isto é, de pensar.

A relação entre filosofia e literatura parece ter sido completamente exaurida, e talvez seja verdade. É raro ver um texto que trate justamente desta relação, que faça justiça a ela: ou vemos filósofos utilizarem-se da literatura para exemplificar suas teorias como mero adorno ou vemos teóricos da literatura apropriarem-se das teorias filosóficas de modo indiscriminado, sem o mínimo respeito à sua sintaxe própria. Ao eleger Quixote como exemplo-mor da metáfora e o ceticismo e o quixotismo como metonímias, respectivamente, da filosofia e da literatura, o autor consegue escapar da tentadora tarefa de abarcar os muitos universos em questão. Fazendo seu recorte, exemplarmente escolhido, Gustavo abre espaço para uma experiência de pensamento que, não ao teorizar, leva o leitor a assumir-se quixotesco e a desejar, como o autor, poder um dia tornar-se cético – tendo consciência desta impossibilidade.

Tanto o ceticismo como o quixotismo são termos que todos parecem conhecer, mas de modo pejorativo. O cético seria aquele que só acredita no que vê, que duvida de tudo, ou seja, um chato; já o quixotesco seria ingênuo, sonhador ou louco. Uma das grandes preocupações do autor, que se mostra um bom cético, é o de, antes de qualquer coisa, afastar os pré-conceitos adotados pelo senso comum. Gustavo suspende os juízos e, com isso, torna o leitor responsável por sua leitura, por eleger, ele próprio, seu quixotismo e seu ceticismo.

Se o ceticismo consiste no exercício autêntico da dúvida, a ponto de chegar à conclusão de que só existimos porque duvidamos, então caímos em um paradoxo: se não acredito em nada, afirmo acreditar em algo; se digo que tudo é relativo, então esta afirmação é relativa e devo admitir que há algo que não é relativo. Portanto, o ceticismo, em sua máxima representação, é impossível. E é tal impossibilidade que conduzirá o leitor ao quixotismo: a postura assumida de que o mundo é uma grande ilusão e que a realidade pode ser obra de um mestre enganador: coisas que vemos tanto nas filosofias de Platão e Descartes como em filmes como Matrix.

No entanto, o quixotismo não é tão simples assim. Não se trata apenas de inverter realidade e ficção. Se o que chamamos de verdade nada mais é que uma metáfora (como Nietzsche já denunciou), a postura quixotesca não pode defender que a metáfora é “a” Verdade, ou que o mundo é ficção. Ao apostar na “loucura”, o quixotismo desacredita ironicamente na realidade e, com isso, desconstrói a própria idéia de verdade. Ser quixotesco, então, é admitir a ficcionalidade mesma do pensamento e a metaforicidade da linguagem.

Verdades Quixotescas, deste modo, não poderia ser senão plural. Gustavo Bernardo não apresenta uma verdade guiada pelos rastros do Quixote. Ao contrário, faz um convite ao quixotismo, ao mesmo tempo crítico e poético e que se mostra, com esta obra, ao alcance de todo leitor disposto tanto a colocar sua própria verdade em jogo quanto a se criar como Quixote.

 
O Globo, 30/09/2006.


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