A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


quixotescas

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VERDADES QUIXOTESCAS

Marcela Santos

“A leitura d’O engenhoso fidalgo Dom Quixote da Mancha, porém, não pode ser adiada. Ela representa a diferença entre compreender a necessidade e achar que já se sabe tudo, ou seja, entre a sabedoria da tolerância e a arrogância da estupidez. ” (p.16)

...concluí que não poderia falar sobre um livro que aborda a obra que inaugurou o romance sem ter dedicado tempo suficiente na minha própria jornada como observadora e companheira das aventuras do nosso adorável e patético (e quantas vezes diante do espelho estes dois não são sinônimos?) fidalgo. Após uma leitura vagarosa (interrompida mais de uma vez pela realidade crua dos prazos e horas marcadas) e repleta de anotações de canto de página, venho tentar falar um pouco sobre a minha experiência como leitora de Cervantes, das verdades quixotescas do autor espanhol e suas elusivas vozes narradoras e, como não poderia deixar de ser, de Gustavo Bernardo. Para tal, como de costume, citarei trechos de Verdades Quixotescas que me tocaram como leitora de ficção ou como uma espécie de Sancho Pança do outro lado do espelho (ou da página).

“Luta contra moinhos de vento quem assume sua fantasia, quem faz ficção e quem lê ficção, apostando na vizinhança do impossível”. (p.65)

Qualquer tentativa de definir uma estante para Dom Quixote da Mancha é nada mais do que uma tarefa fadada ao fracasso. Etiquetar o romance fundamental parte do mesmo impulso que move críticos que procuram conferir resposta definitiva para a ambiguidade quixotesca, ambiguidade que abraça personagens e narrativas do romance em sua retórica fragmentada, nomes trocados e datas incertas. A busca por uma resposta definitiva pode ser melhor representada numa analogia à busca por uma chave onde o propósito não é abrir a porta para as possibilidades, mas trancá-la, encerrando na mente uma única interpretação, a qual, isolada, se atrofia na forma de certeza cristalizada.

“O Cavaleiro da Triste Figura percorre as estradas de terra da Espanha como metonímia de toda a ficção: ele recusa a realidade que o cerca e então coloca no lugar o mundo dos romances de cavalaria que leu. Ele duvida da realidade e propõe outra no lugar exatamente como os poetas e os prosadores. Sua lança torta e quebradiça representa a pena igualmente torta e quebradiça dos escritores. No entanto, como ele mesmo é um ser de ficção, suas histórias se revelam vertiginosamente abissais. ” (p.67) 

A importância do romance de cavalaria às avessas não reside necessariamente na sátira (uma das etiquetas mais frequentemente conferidas à obra de Cervantes, ao lado de “literatura clássica”, ambas insuficientes) mas no caleidoscópio de novas possibilidades. Cervantes embarca na jornada de seu Fidalgo. O leitor crítico pode encontrar temas e referências na obra, mas essas não deveriam jamais se sobrepujar ao prazer da ficção pela ficção. O propósito maior de qualquer história é simplesmente contar uma história. O propósito de um contador de histórias é entreter seu leitor ou plateia com personagens que, em trajes do patético inerente à natureza do único ser que sabe que é, sabe que nasceu e que vai morrer e que, no entanto, não sabe por quê. Ser humano é ser ridículo, sem que tal conclusão carregue por si só um juízo de valor negativo. Cervantes apresenta um indivíduo em busca de algo que é só seu, numa jornada em nome do que não é. O pouco dos hojes e ontens encadeados não basta para Quixote e, porque a existência plana não basta, ele parte na jornada em busca do que lhe parece válido, sem esperar ou mesmo desejar ver a sua inquietação compartilhada por seguidores ou simpatizantes. 

Numa discussão em aula sobre possíveis “mensagens” em textos literários que autores pudessem ter intenção de passar adiante, minha brilhante professora de literatura inglesa defendeu que assumir que obras literárias sejam embebidas de mensagens é uma suposição essencialmente vazia e insustentável: não se sabe o que o autor tinha em mente ao escrever sua obra, ou o que ele pensou ao vê-la concluída. Não se sabe se a voz narrativa é a do autor em si, ou de quem seriam as possíveis convicções representadas. Ainda que o escritor explique suas intenções em entrevista, uma vez no mundo, a obra está aberta para interpretações além daquela do seu próprio criador. Podemos identificar possíveis pontos de vista e temas, mas conferir um caráter de “mensagem” a um texto literário resvala para algo muito próximo do discurso messiânico de Hugo Chávez, ao se fazer valer de Dom Quixote para servir aos seus interesses políticos. 

Existe, de fato, somente a história. A forma como o leitor se relaciona com ela vai além dos recortes da crítica e mesmo da personalidade conferida pelo autor.  Eu enxergo nas páginas do longo romance a fantasia que abriga, desafia ou conforta minha perspectiva de leitora. A qualidade da ficção é delineada pela realidade insuficiente de onde se escapa. Sendo a própria realidade uma ficção, uma construção, talvez seja oportuno reescrever a frase anterior como “A qualidade da ficção é delineada pela ficção barata de onde se escapa”. Realidade é a ficção com a qual não se espanta, aquela que ninguém observa com encantamento.

“Ora, é esta assunção da responsabilidade que empresta à ficção sua força: a força de parecer mais real do que o real cotidiano”. (p.9)

“A solução dos encantadores faz parte da loucura do personagem, mas ao mesmo tempo transforma essa loucura em um campo que produz ficções. Tais ficções duplicam dentro do romance o papel da ficção mesma: primeiro, duvidar da realidade e dos discursos sobre ela; segundo, formular uma realidade alternativa; terceiro, refinar a realidade que vivemos”. (p.91) 

Não se pode ser jamais o que se quer, porque a essência do desejo é ser inalcançável. Confinados a sermos um só, encarcerados e eternamente sós sob nossas próprias peles, se faz insaciável a sede pelo desconhecido, pela dúvida do que poderia ter sido. A ficção nos transporta para universos completos e portáteis, em mergulhos mais profundos e intensos que os dias distendidos e duramente sequenciais. Quando assisto um filme, posso me perguntar se não seria mais feliz caso tivesse nascido numa cidadezinha no interior da França um ou dois séculos atrás ou se fosse médica legista. Transportada para as páginas de um livro, posso ter certeza que a minha real morada é na Inglaterra vitoriana ou nos vibrantes anos 20. Só não posso ser só hoje, porque fora da ânsia irrefreável de consumir (e ser consumida) por todas as realidades - ou ficções - o que resta é uma armadura vazia, como no romance de Italo Calvino. “Bom, para alguém que não existe está em excelente forma”. O estado humano, enquanto indivíduo - enquanto eu - é de permanente melancolia nostálgica pelo que não se pode ser. Talvez Rimbaud estivesse sendo consumido pela mesma febre quando escreveu Je est un autre

A arte multiplica aquilo que a natureza não tem semente para oferecer: a inquietude de ser apenas um corpo não obstante as tempestades internas. Inventamos cada passo e não há uma só palavra nessa linha que não seja uma metáfora fabricada por uma ideia abstrata de mente, só alcançável através da própria metáfora que ela fabrica. Se tivesse eu escorpiões na minha mente, tal como Macbeth, estes estariam a aferroar-se a si próprios em decorrência da vertigem na leitura (p.10) de abstrações tão obscuras. Ao questionar qualquer insuspeita unidade do ser, o tal efeito da boneca russa se apresenta: é infindável o nosso labirinto de certezas improvisadas e o status quo não passa de um castelo de cartas na ventania. A incerteza, entretanto, não deveria causar tamanha angústia, mas libertação genuína.

 “Aos poucos Dom Quixote percebe que os mouros derrotados por sua espada não passam de bonequinhos de massa, agora destroçados. Não se dá por achado, porém, pondo a culpa nos feiticeiros que o perseguem e alteram a todo instante a realidade”. (p.10)

Investido em sua jornada, Quixote ainda dá conta de explicar cada passo mediante as admoestações (antes mais frequentes e com o virar das páginas e passar do tempo mais desbotadas) de Sancho Pança. Explica assim para o leitor que a sua razão de ser ou de sonhar se encontra antes na sua própria tenacidade, provando-se assim cavaleiro digno da própria fantasia.

 “A expressão que escolhe, ‘a mim pareceu que tudo que aqui se passou acontecia ao pé da letra’, diz mais do que Quixote diz. Querendo explicar que as coisas aconteceram realmente, que as marionetes não seriam marionetes mas sim pessoas reais, acaba por afirmar que a tal da realidade acontece ao pé da letra, isto é, como efeito de um discurso”. (p.11)

 A realidade-ficção de Quixote comunica a sede literária do protagonista e traduz impulsos inerentes ao eu-criativo. Não consegui enxergar em minha leitura qualquer tipo de pregação dogmática - ainda que velada - do que o outro deve ser. Desta forma, só pode ser qualificada como oportunista a apropriação da retórica quixotesca por parte de grupos ou representantes de ideologias A ou B. O personagem que quer ser personagem não oferece uma cartilha e jamais diz aos que o cercam que estes deveriam segui-lo.

 “A metáfora do Cavaleiro da Triste Figura é quixotesca, entre tantas outras razões, porque os caudilhos continuam a neutraliza-la ao entende-la literalmente, ou seja, ao nega-la como metáfora”. (p.55)

“Compete à teoria ‘deschavevizar’ o personagem, devolvendo-lhe sua loucura fundamental. O que nos vale é que as metáforas continuam ‘ali’, na linguagem, esperando pelo poeta que as acorde do seu sono alienado. Por isso se pode afirmar que a metáfora é tão quixotesca quanto Dom Quixote: ela combate os moinhos de vento até que se percebem os diferentes sentidos contidos na própria metáfora dos moinhos de vento”. (p.57)

 Apropriado seria, portanto, interromper o longo ciclo de distorção da jornada de Quixote, seja por parte de românticos, seja por políticos, enfim, de qualquer um que vise pregar verdades absolutas sobre o personagem. Quixote é metáfora pura: extremamente volátil, complexo. A categorização se faz desnecessária. É pretensioso supor que o Cavaleiro seja um reflexo de quem quer que seja além dos seus limites de personagem literário, ou seja, ele se torna espelho de qualquer leitor, mas pela imersão na fantasia, não por afinidade com uma posição ou messianismo político absolutamente inexistente nas ações do personagem. 

“Como a verdade humana é sempre ridícula e trágica ao mesmo tempo, apenas aquele que consegue enxergar essa combinação paradoxal reconhece o seu espelho”. (p.16)

Dom Quixote queria ser personagem de romance de cavalaria, sendo ele próprio personagem de literatura, um dos (se não o) primeiros indivíduos da literatura ocidental. Um sujeito movido por desejos, impulsos e contradições. Quixote era feliz sendo exatamente o que era: sua natureza de personagem era a sua felicidade. Os queimadores de livros parecem agir com base numa cegueira psicológica (ou emocional) que os impede de absorver o objeto real da obsessão de Quixote. Combatendo moinhos ou gigantes, sendo fidalgo, cavaleiro ou leitor, a jornada parece ser sempre em direção a algo tão simples quanto elusivo: a felicidade do indivíduo.

"Para Dom Quixote, o personagem literário que tem como maior desejo se tornar exatamente o que é, a saber, um cavaleiro como o dos romances que leu, o mundo é um livro, e livro de ficção”. (p.96)

“Identificamo-nos com este ou aquele personagem porque a nossa própria identidade é muito frágil. Ora, exatamente por essa razão precisamos dos personagens de ficção para nos sentirmos reais. Nesse caso, nada nem ninguém, nem mesmo Miguel de Cervantes, é mais real, tem mais força de realidade, do que Dom Quixote da Mancha”. (p.17)

Poucas representações na ficção são tão fiéis à pulsação da natureza humana quanto a noção do outro. Se o eu existe em função da distinção em face do outro, é crucial também aceitar que a imagem deste outro não passa de conjectura. E se eu meu ato de ser só se torna possível em oposição ao que eu não sou, minha construção de identidade é inevitavelmente mais presumida do que inequivocamente delineada. Para superar o horror de ser no mundo e dentro da própria natureza incompreensível, refreamos a nossa reação natural ao nascer: intolerância a um ambiente hostil que espera de nós e do qual aprendemos a esperar. A incompreensão do todo é lentamente substituída por suposições travestidas de verdades absolutas, suposições cristalizadas pelo tempo. Para parar de chorar diante do mundo, finjo que sou parte dele. O choro de bebê é substituído por outras formas de escape do que não nos pertence: o outro, o mundo e a própria noção do que se é. Entre as formas principais de escapismo, a ficção. Não somente a ficção dos livros e dos filmes, mas aquela que da qual somos protagonistas todos os dias. 

Como Quixote, interpretamos papéis e, se tivermos sorte, o papel que sempre desejamos. Seja o cavaleiro dos romances ou de escritor desses romances. Quixote é essencial não por suas vitórias, tampouco por suas derrotas. Não é essencial nem mesmo pelo seu talento para sonhar. Ele é essencial porque mostra que a caótica existência humana se justifica pelo próprio enigma do que se presume, mas não se sabe ao certo. Pelo patético de ser humano significar falibilidade e incerteza e pela glória de habitar exatamente nessa massa desorientada do que se pode tocar apenas com sonhos. Tudo que vale a pena é ridículo: o amor, o risco, a novidade. A inquietude do sonhador. E esse senso de ridículo e patético não fere o indivíduo tanto quanto o eleva a um estado do que talvez se aproxime mais do que qualquer outra tentativa do que deveria ser o seu único objetivo na jornada de existir: ser feliz. 

“Como me adverte Esteban Celedón, no artigo “Ensayo de um ensayo” (...), a loucura cumpre um papel metafórico, representando o avesso da razão enquadradora, logo, compreensão profunda e consequente transformação”. (p.16-17)

A loucura de Dom Quixote não é patética, mas sim corajosa: ele leva a sério suas verdades e abdica de julgar a verdade dos demais”. (p.19)

Num universo de improbabilidades e narrativas dentro da narrativa, Quixote parece elevar seu jogo ou fantasia ao nível da sua realidade básica, aquela em que se movimenta. O mundo em que habita não exige que ele se preocupe com o tempo nem com o espaço. Quixote habita em seu próprio país das maravilhas. Tal como Alice o faria mais de 200 anos mais tarde, Quixote percebeu que o tempo pode ser vivenciado de forma particular. No capítulo “O chá maluco”, Alice é confrontada com todas as incongruências das medidas do seu mundo paralelo em relação àquele de onde veio. Primeiro é dito que não há lugar onde há lugar de sobra, em seguida a Lebre lhe oferece vinho que não existe e, por fim, um relógio marcava dias, e não horas. O melhor, no entanto, vem a seguir. Quando a menina não encontra solução para o enigma apresentado pelo Chapeleiro Maluco, pergunta qual era a resposta. Ele diz que não sabe. O país das maravilhas protege o enigma. 

“Alice suspirou enfastiadamente. ‘Eu acho que você deveria fazer coisa melhor com seu tempo’, ela disse, ‘ao invés de gastá-lo com charadas que não têm resposta’.

‘Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço’, o Chapeleiro falou, ‘não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa’”.

O Chapeleiro então explica que ele e o Tempo, personificado, tiveram um rompimento. E que por isso, para ele, são sempre seis da tarde.

“‘E desde então’, o Chapeleiro continuou num tom de lamento, ‘ele não faz nada do que eu peço! É sempre seis da tarde agora!’

Uma ideia brilhante veio à mente de Alice. ‘Esta é a razão de tantas coisas para o chá colocadas na mesa?’ ela perguntou.

‘É, é isso’, respondeu o Chapeleiro com um suspiro, ‘é sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar as coisas entre um chá e outro.’”

O chá da tarde está eternamente congelado às seis horas. 

Dois capítulos mais cedo, a Lagarta havia explicado para Alice que ela se acostumaria com o tempo. Do outro lado do espelho, Humpty Dumpty celebra seu desaniversário. O rei tenta expulsar Alice do tribunal por ela ter mais de um quilômetro e meio de altura. As verdades no mundo desenhado por Carroll se sustentam pela própria fantasia. A da menina, a do autor ou a do leitor. Da mesma forma, Quixote, descrito pelo cavaleiro do Bosque como um “homem alto, de rosto seco, de braços e pernas compridos e magros, grisalho de cabelo, de nariz aquilino e um pouco recurvado, de bigodes grandes, negros e caídos”, se vê como um herói inexpugnável. 

“Se a verdade é sempre uma metáfora, isso significa que ela está no lugar de outra coisa, precisamente aquilo que não se sabe. Se aceito o caráter metafórico da linguagem, não preciso muito para admiti-la como ficcional, quer se apresente como tal, quer não. (...) todo discurso funda-se pela ficção.” (p.54)

Acredito que se perde muito da leitura quando se assume que imprecisões de datas e nomes não passam de enganos. A história se enriquece justamente na indefinição, na preservação do enigma de uma literatura sobre literatura, do personagem brilhante e louco que se alimentava dos sonhos em que habitava. O apelo da ficção em que ele transformou a própria vida é tão intenso que envolve o próprio Quixote. Confrontado pelo discurso do cavaleiro do Bosque, o Cavaleiro da Triste Figura defende sua honra em terceira pessoa, num acesso de empatia semelhante ao que o leitor fervoroso tem por seu personagem favorito.

“Admirado quedó don Quijote de oír al Caballero del Bosque, y estuvo mil veces por decirle que mentía, y ya tuvo el mentís en el pico de la lengua; pero reportóse lo mejor que pudo, por hacerle confesar por su propia boca su mentira; y así, sosegadamente le dijo:

 -De que vuesa merced, señor caballero, haya vencido a los más caballeros andantes de España, y aun de todo el mundo, no digo nada; pero de que haya vencido a don Quijote de la Mancha, póngolo en duda. Podría ser que fuese otro que le pareciese, aunque hay pocos que le parezcan. (...)

-Sosegaos, señor caballero -dijo don Quijote-, y escuchad lo que deciros quiero. Habéis de saber que ese don Quijote que decís es el mayor amigo que en este mundo tengo, y tanto, que podré decir que le tengo en lugar de mi misma persona, y que por las señas que dél me habéis dado, tan puntuales y ciertas, no puedo pensar sino que sea el mismo que habéis vencido. Por otra parte, veo con los ojos y toco con las manos no ser posible ser el mesmo, si ya no fuese que como él tiene muchos enemigos encantadores, especialmente uno que de ordinario le persigue, no haya alguno dellos tomado su figura para dejarse vencer, por defraudarle de la fama que sus altas caballerías le tienen granjeada y adquirida por todo lo descubierto de la tierra. Y, para confirmación desto, quiero también que sepáis que los tales encantadores sus contrarios no ha más de dos días que transformaron la figura y persona de la hermosa Dulcinea del Toboso en una aldeana soez y baja, y desta manera habrán transformado a don Quijote; y si todo esto no basta para enteraros en esta verdad que digo, aquí está el mesmo don Quijote, que la sustentará con sus armas a pie, o a caballo, o de cualquiera suerte que os agradare.” (Libro II, Capítulo XIV)

A noção de identidade é tão tênue frente à paixão pelo universo fabricado que Quixote se torna três ao mesmo tempo: o amigo (leitor), o outro (que define os limites do eu) e o próprio nome que defende. Tudo que é e tudo que não é serve igualmente ao propósito de reforçar a fantasia. Vitórias são sinais do triunfo na jornada, derrotas são obras de encantadores. Assim, o enigma, a fantasia e a ficção magnética permanecem protegidos, mais reais do que o palpável. A dúvida é mais crível que a certeza: “é preciso saber, mas não saber tudo (quando se acabaria todo riso e todo pensamento) ” (p.18) Quixote sabe que é preciso continuar, que é preciso acreditar no seu senso de propósito e no seu impulso de viver de acordo com o que o faz realmente vivo, essencialmente feliz.

“Faz parte do jogo do cavaleiro justificar todas as derrotas frente à realidade atribuindo-as a feitiços malvados dos encantadores. Os encantadores do fidalgo são maus como pica-paus, ou melhor, como os poetas, cuja função é precisamente a de garantir a coexistência e a compatibilidade de diversos universos de significado. Os encantadores existem para proteger os paradoxos e os enigmas. ” (p.18)

Quixote embarcou não em uma história, mas em uma forma literária (já antiquado em sua época), uma configuração de mundo regida por um código de honra que definia melhor quem ele era do que tudo que ele havia vivido até então. O fidalgo vivia com mais intensidade em sua biblioteca do que jamais poderia fora dela. Assim, virou ele próprio a literatura, levando em suas ações a fantasia para as estalagens, tavernas e vilarejos pelo caminho. Sua própria existência contava uma história. Em sua nova persona andante, o fidalgo se viu pela primeira vez. Sem a coragem, sem o patético e sem os moinhos ele seria só mais um homem exemplar. Sonhar pelo prazer do gesto em si é revolucionário. Não no sentido que alguns gostariam para ilustrar sua propaganda. Revolucionário por desfazer uma boa meia dúzia de amarras que criam a ilusão de que o real não é por si só uma metáfora que fecha os olhos ao que não se conhece.

“Tal ênfase, porém, se funda sobre um paradoxo: a ficção em si mesma implica uma suspeita sobre a realidade e, consequentemente a elaboração de uma realidade alternativa, o que por sua vez, implica curiosidade sobre o que poderia ter sido. ” (p.24)

Aproveito a canção do músico galanteador de “O ciumento”, não para me referir à Camila, Lotário e Anselmo, mas à jornada de Dom Quixote da Mancha.

Dizem que está escrito,
E com grande razão,
Ser a privação
A causa do apetite (p.26)

Nosso enigmático protagonista procurou no outro, ou seja, no cavaleiro que se tornou o personagem que queria ser. Sua fome do que não podia alcançar numa vida convencional nasceu das restrições de um estilo de vida respeitável e racional. Fora dessa zona de conforto estavam todos os moinhos que ele precisava combater para pôr à prova a própria existência. 

Toda convicção é essencialmente frágil. Por isso, viver, matar e morrer em função de certezas contamina a existência. Se, de acordo com Erasmo de Roterdã, “a guerra termina e começa no próprio pensamento” (p.21), é inestimável o valor da preferência de Quixote (ainda que inconsciente) por inimigos construídos: os encantadores, os moinhos transfigurados por estes. O Cavaleiro não quer destruir ou arrastar ninguém para o que ele se tornou ou sempre foi. Sua fantasia é autossuficiente e seu sonho inofensivo para aqueles que dele não compartilham. Qualquer tentativa de direcionar o alvo de Quixote para um lado ou outro não pode deixar de ser classificado como má-fé. À luz desse ponto de vista, é um alívio saber que “Machado [de Assis] desconfia da arrogância daqueles que querem consertar o mundo” (p.50). Dom Quixote da Mancha deliberadamente não era arrogante.

“Quixote combatia moinhos de vento e não injustiças. - não pretendia liderar ninguém nem concebia seguidores. “ (p.49)

 Sobre "A curiosidade impertinente"

“Os Viscondes fizeram um torneio que não se encontrava no original, interpretando que os poetas não dizem a verdade porque a ‘verdade’ lhes vem a posteriori, pela própria poesia, enquanto os namorados não chegam a dizer a verdade toda para que o amor não perca sua condição constitutiva de enigma. ” (p.32)

 

Ao se tornar obcecado com a prova palpável de algo que jamais poderia se materializar, ou seja, ao querer ter prova de algo em que deveria confiar, Anselmo parece cair - enquanto personagem de ficção ou enquanto ser humano - na mesma tentação de todo aquele que procura por resposta definitiva. Tal como Midas, que perseguiu Sileno em busca de uma resposta unívoca apenas para ouvir que para ele era melhor nem ser (e neste ponto eu adoraria enveredar por divagações sobre “O Mágico de Verdade”, “A ficção de Deus”, centauros e dúvidas, mas vou tentar me ater à presente questão e me dedicar a essa análise no futuro); Tal como aqueles que tratam metáforas bíblicas como relatos factuais, transformando em dogma argumentos e representações que nem ao menos compreendem por retirar do texto qualquer possibilidade de análise sensível, ou até mesmo como Édipo que extraiu forçosamente a verdade do sábio Tirésias e, por fim, tal como queimadores de livro e ditadores genocidas, Anselmo sufocou a liberdade - a possibilidade do sim ou não que paira silenciosamente na bolha do enigma. Se Macbeth assassinou o sono, Anselmo encarcerou a si mesmo, a Camila e a Lotário entre quatro paredes, num inferno sartriano que só se torna mais leve por oferecer alguma natureza redentora na morte. 

 “O medo é tanto que ele precisa produzir precisamente a situação de que tem medo, porque essa é a única maneira de se ter alguma certeza sobre o outro e sobre o mundo. ” (p. 81)

Ao assassinar a possibilidade da dúvida através de maquinações manipuladoras, Anselmo se transformou no próprio algoz, tornando a vida tão angustiante para todos os envolvidos em seu plano infeliz que viver se tornou uma experiência árida, ciosa de mistério, de surpresa, da dúvida que move o ser humano adiante. A obsessão de Quixote pelo sonho literário e pela luta imaginária, que gera tanta controvérsia até entre os seus companheiros mais próximos, parece absurdamente saudável quanto contraposta à “Novela do Curioso Impertinente”. A obsessão de Anselmo é contra o sonho e contra a imaginação. É proveniente de uma visão unidimensional da esposa, do melhor amigo e da própria natureza humana. Cabe ao ser humano consciente de si próprio e do mundo aceitar e apreciar a incerteza que se ergue inevitável frente à sua própria natureza. O ciúme que se alimenta da obsessão pela certeza aparenta ser, de fato, “menos uma doença do amor do que uma doença do conhecimento” (p.25). Cada pessoa é um universo irregular e contraditório. Um pequeno universo individual povoado por ideias, anseios, urgências, saudades, vergonhas, apegos, desgostos e memórias multiplicados por bilhões, universos que se chocam diariamente como estrelas cadentes cortando a atmosfera. Não há uma solução definitiva, uma fórmula ou equação, portanto a busca pela Verdade é paralisante e desesperadora. Anselmo perde a razão procurando por ela, Quixote encontra a sua própria verdade na representação do que deseja ser - e que talvez seja de fato.

A dúvida de Anselmo, “Como saber se ela é verdadeiramente uma mulher boa, se nada a induz a ser má? ” é absolutamente estúpida. Por necessidade de ter uma certeza que seria impossível apreender, acaba escrevendo a história de amor de Camila e Lotário. Os dois se tornam personagens da sua ficção, com Lotário interpretando seu papel desde o princípio, e Camila se tornando uma peça do jogo no momento em que se apaixona pelo amigo do marido. 

Se Quixote mostra ao leitor o quão tênue o limiar entre a realidade e a fantasia pode ser ao confundir gigantes e moinhos de vento e viver na pele o que antes somente poderia imaginar, Lotário mostra o mesmo quando “de tanto fingir que a queria, começa a deseja-la de verdade” (p.29). Não resistirei à tentação de citar o já abundantemente citado poema “Autopsicocrafia” de Fernando Pessoa. Anselmo, que em sua empreitada “se coloca na posição de um deus” (p.39) pode ser o autor do romance, mas a conversão de Lotário em poeta é irreversível, e não por causa dos versos que dedica à amada.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente 

Se são os encantos de Camila ou a força ficcional que atraem Lotário ao ponto de fazer a trama engendrada ultrapassar os limites da encenação e agarrar as rédeas da realidade, é impossível dizer com certeza, especialmente porque não cairei na mesma tentação de Anselmo. Se “existe algo como a verdade, mas ela não pode ser expressa, pelo menos não completamente” (p.32), é exatamente esta porção que precisa ser protegida como condição da vida continuar tendo sabor. A parte que não precisa ser vislumbrada é a epifania no final do filme, as borboletas na barriga do primeiro encontro, a ansiedade diante do novo. A face da lua que não precisa vir à luz corresponde à nossa capacidade de sonhar, de não saber e imaginar, supor, criar, de amar as pequenas descobertas do dia-a-dia com a consciência de que haverá outras assim numa quantidade que excede os dias que nos restam, ainda que sejam muitos.

“Anselmo conspira contra o futuro para que este confirme o seu delírio, enquanto Quixote age a partir do mundo ideal que construiu a partir dos livros de cavalaria que leu. ” 

De uma forma em parte semelhante a Quixote, o bibliotecário Pedro de A filha do escritor também se permitiu viver o universo que ele sonhou integrar. A diferença crucial se dá, é claro, pela vivência se Pedro se dar em sua mente. Ele é extremamente engenhoso, entretanto. Cria uma bolha, um universo ficcional repleto de referências a Machado de Assis, incorpora não uma de suas criações, mas toma a pena do escritor em mãos e é o reflexo do Bruxo do Cosme Velho que ele enxerga do outro lado do espelho. Ele é Joaquim, mas é médico - e gagueja. Convenientemente, trabalha em uma das “suas” criações: a casa verde, onde recebe e interna a “sua” filha Lívia. Uma personagem desprendida do primeiro romance de Machado. A primogênita, o primeiro romance, o primeiro suspiro de vida. O universo em que mergulha é tão apaixonante para Pedro que deste não há retorno. Um mundo onde ele é composto e cercado por tantos reflexos partidos daquele que, de uma certa forma, também o moldou após mergulhos menos profundos durante as leituras, se consumou como pai e como eu após o incêndio que o bibliotecário provocou. O incêndio que anulou o real imediato e transpôs o real imaginário para o plano principal. A mulher perfeita, sua paciente, à procura do pai, ou à procura dele, uma personagem à procura de um autor, tal como na obra de Pirandello. Lívia é mais um reflexo de Pedro, da fantasia que ele vive. Se não fisicamente combatendo gigantes ou moinhos de vento, ao menos no universo da sua mente. É difícil precisar até onde isso faz diferença do ponto de vista do indivíduo. Pedro habita em sua mente e não no mundo. Desocupou este universo quando incendiou o ninho que o preparou para abrir as asas para o que realmente desejava ser. A biblioteca, uma figura quase materna, o libertou para ir em busca de Lívia.

“Lívia tem tanta existência quanto o matricida do quarto 27 que também se chama Joaquim, quanto o uxoricida do quarto 28, quanto o lamento de Severino-Baillon, ‘je ne suis pas fou, JE NE SUIS PAS FOU!’, coisa que eu não disse nem em português - eu já admiti que ‘je suis fou’, não admiti?

Ou seja, Lívia tem tanta existência quanto os quatro versos do Poeta, enfim, quanto o coitado do Poste enquanto existiu e permaneceu em pé, os olhos muito abertos mas totalmente apagados, é no mínimo uma impertinência que o senhor tente negar ou mesmo denegar a existência da minha Lívia assim.

Nem ela é minha nem nunca existiu, o senhor repete - e ainda acrescenta o absurdo de que nenhum dos pacientes a que acabo de me referir chegou a ser internado no nosso estabelecimento, perdão, no seu estabelecimento?... o senhor deve estar...

Melhor não dizer. Melhor não dizer o que estou pensando.

(...)

Assim como eu existo neste momento como doente e o senhor existe no mesmo momento como psiquiatra e como meu médico, uma mulher chamada Lívia e que se dizia filha de Machado de Assis de fato existiu, ela tem que ter existido, senão...

Senão, senão o mundo todo é que estaria louco, completamente louco e não apenas eu. Não percebe que Lívia é tudo que importa, ela é o alfa e o ômega, a metáfora mesma da própria realidade, a própria mulher original, logo, a origem mesma de nós outros?

Se Lívia não existe, a própria realidade não existe!”

(A filha do escritor, p.141-142)

Precisei recorrer a uma citação longa, mas acredito que este trecho represente perfeitamente a conclusão à que cheguei: a questão que Pedro representa não é uma dicotomia entre realidade e fantasia e nem necessariamente é o médico cuja voz não se faz ouvir que ele está combatendo. Pedro combate primeiro a dúvida sobre a existência de Lívia. São ou insano, não é a sua saúde mental que precisa ser comprovada, a única certeza é Lívia. Mas tal procura por certeza não nasce da procura por uma resposta inequívoca, tal como os exemplos citados anteriormente. Pedro quer ter certeza que existe espaço para a sua composição à quatro mãos com o verdadeiro Machado existir. Quando ele afirma que Lívia é a metáfora mesma da própria realidade, ele não defende acontecimentos ou lembranças, mas um conceito do qual ele se orgulha e pelo qual ele se apaixonou. O magnetismo do escritor e da filha dele era tão intenso que o incêndio na mente do bibliotecário se alastrou pelas estantes e pela vida, onde a ficção de Machado e a dele se fundiram em uma só, a obra prima, a mulher original. Assim como Quixote, Pedro habita, ama e protege a própria metáfora. 

“Lutar contra moinhos de vento é a própria luta da ficção contra a realidade, como o romance deixa muito claro quando atribui o encantamento dos moinhos ao mesmo sábio que roubara o aposento dos livros do cavaleiro. Apesar da aparente derrota, apesar de se encontrar bastante machucado, Dom Quixote recorre a um oximoro poderoso ao opor, às más artes do sábio Frestão, a bondade da sua espada. ” (p.65)

O pintor William Dobell afirmou que “um artista sincero não é aquele que faz uma tentativa fiel de passar para a tela o que está na frente dele, mas aquele que tenta criar algo que é, por si só, uma coisa viva”. Analisando os personagens por este ponto de vista, tanto Quixote quanto Pedro criam vida nos universos em que habitam. Seja a mulher ideal Dulcineia ou Lívia, o inimigo um gigante ou a própria razão, os dois são e permanecem fiéis e apaixonados por suas criações até o final, entre batalhas vencidas, perdidas e mariposas invisíveis.

OS MOINHOS DE VENTO

“A segurança geralmente é uma superstição. Ou a vida é uma aventura audaciosa, ou não é nada”. - Hellen Keller em The Open Door (1957)

“Pouco importa aquilo em que se acredita, desde que não se acredite completamente”. (p.46) - Bertrand Russell

A linha que existe entre herói e louco patético se de fato existe, é tênue e não há problema algum nesta constatação. Quixote é um herói admirável justamente por não ser tão herói assim, por ser um herói em outros termos, protagonista e encenador dos próprios sonhos. Sonhos que nascem da vontade de ser aquilo que por natureza ele já é: um personagem e talvez uma versão mais interessante do que aqueles que ele admira. Quixote não é a representação de um determinado valor, mas da ambivalência e da confusão mental envolvidas por um senso de dever e de coragem. Por não haver uma palavra exata para dizer o que ele é, o cavaleiro se torna o herói-espelho do seu e do nosso tempo.

“Com o recalque da ambiguidade, recalcam-se junto todos os aspectos patéticos e complexos de Dom Quixote. O personagem que inaugura o herói problemático se desproblematiza, tornando-se novamente épico e unívoco.” (p.52)

As oscilações do personagem, sua jornada, trapalhadas e o equilíbrio de vitórias e derrotas reforçam a ideia do “ceticismo como ideia reguladora, ideia horizonte” (p.46). O indivíduo não precisa de mais um Hércules e suas 12 tarefas, de outro Aquiles (quase) inexpugnável, de um Perseu decapitando Medusa e nem de deuses temperamentais espetaculares. O leitor do início do século XVII, onde o indivíduo não passa a existir, pois ele já efetivamente existia, mas ao menos a se reconhecer na literatura, precisa do herói confuso e meio ridículo, de um Segismundo, de um Hamlet ou um Macbeth. O herói pode então ser um “homem alto, de rosto seco, de braços e pernas compridos e magros, grisalho de cabelo, de nariz aquilino e um pouco recurvado, de bigodes grandes, negros e caídos”.

“Este livro é a sátira mais feroz e dolorosa com que jamais se amaldiçoou a baixeza da condição humana. Os seus 116 capítulos são 116 estações da Via-Sacra do Ideal. O Sonhador caminha de desilusão em desilusão e de desastre em desastre. Tudo quanto de belo o seu sonho cria e anima fica logo desfeito em fealdade e em vulgaridade. Já não há na Terra aventuras dignas de tal aventureiro. ” Olavo Bilac (p.50)

Neste caso, sou obrigada a discordar de Olavo Bilac. Não sou a leitora do século XVII, mas enquanto leitora do XXI, não pude enxergar apenas desilusão e desastre. Parece-me que em meio à natureza caótica da jornada e da “vulgaridade”, existe em Quixote um senso de esperança inexpugnável. O Cavaleiro da Triste Figura pode ter nascido de um olhar para um passado glorioso, pode ser carregado em tons de melancolia pelo que gostaria de ser e que não existe mais, pela saudade do que não viveu ao pisar na terra que já foi ocupada pelas histórias fantásticas que o encantaram. Quixote não é, entretanto, o cavaleiro ideal. Suas vestes (parafraseando Macbeth) são emprestadas. Seu valor não está num ideal de dignidade, mas no potencial da fantasia, na qual mergulha não apenas o leitor, mas os outros personagens. A ficção onde Quixote habita é lindíssima justamente por suas arestas mal aparadas, por suas estradas pedregosas. Não me parece legítima a representação de Quixote como moralmente superior ao que o cerca ou ao seu tempo. A ficção dele existe justamente porque esse tempo existe. Porque o mundo está cinza, ele traz um pouco das cores das páginas para deixar o céu um pouco mais azul, o jardim um pouco mais perfumado e a estrada um pouco mais digna da jornada. 

“Entretanto, a convivência com o Cavaleiro da Triste Figura vai diminuindo, para Sancho, a importância da ilha, e aumentando a importância do sonho, vale dizer, do desejo. ” (p.93)

Dom Quixote da Mancha é a história que precisava ser contada exatamente naquele momento e por ter sido contada com maestria, sobrevive e sobreviverá, permitindo leituras e análises, representações e fantasias em torno da obra absolutamente diferentes entre si e nem por isso menos verdadeiras. A obra é uma ode às fronteiras desbotadas, ao valor da incerteza e a universos entrelaçados. Em sua jornada, Quixote encontra fragmentos de si mesmo, aventuras necessárias, inimigos subjugáveis e outros que o subjugam. O Cavaleiro da Triste Figura não procura, resta claro, uma resposta final e parece ser capaz de apreciar o caminho pelo que é.

“O que o romancista constrói, de modo claramente deliberado, é um sistema de relativização da vitória e da derrota, da sanidade e da loucura, da sabedoria e da ignorância - ou seja, um sistema cético. (p.86)

LIBERDADE

Ser protagonista das próprias aventuras - julguem-nas descabidas os outros, se quiserem - parece ser a liberdade definitiva. Liberdade que abre das certezas institucionalizadas pela certeza única da aventura. Liberdade infantil que vê nos soldadinhos de plástico um exército e na caixa de papelão um navio. Liberdade numa concentração tão obscena aos que não a alcançam que ela culmina no episódio da biblioteca. Liberdade somente alcançada por alguém cujo ofício se realiza vivendo. Vivendo a própria ficção, temperando a realidade com uma tonalidade diferente do eu e do outro.

“Aunque bien sé que no hay hechizos en el mundo que puedan mover y forzar la voluntad, como algunos simples piensan; que es libre nuestro albedrío, y no hay yerba ni encanto que le fuerce.” (Libro I, Capítulo XXII)

Dom Quixote fala, ao menos em minha leitura, de liberdade acima de tudo. E se mais de 200 anos após a revolução francesa, Liberté, Égalité e Fraternité ainda são lutas diárias num Estado democrático onde alguns gritam pelo fim da democracia, fabricando lembranças nostálgicas para polir ditaduras, mordaças e tortura, a procura e a luta por liberdade se prova eternamente atual. Enquanto alguns enxergam como solução o aprisionamento de crianças em lugar da educação, a obra de Cervantes fala “De la libertad que dio don Quijote a muchos desdichados que, mal de su grado, los llevaban donde no quisieran ir”. O Cavaleiro da Triste Figura tem a capacidade e a facilidade de sentir empatia pelos condenados, acreditando serem eles dignos de sua luta. Correntes o incomodam. O seu mergulho libertador na própria obsessão ou na própria vontade reflete o impulso de ser exatamente o que ele era. E se Dom Quixote não procura seguidores, procura ao menos ajudar os outros a se livrarem de suas amarras. Ele vive plenamente o que habitava em sua natureza e deseja o mesmo para os outros. Não a sua verdade, mas a sua liberdade. Desta forma, é prova viva - ou literária - de que

      isso de querer
ser exatamente aquilo
      que a gente é
ainda vai
      nos levar além

e ao se comunicar tão bem com a poesia de Leminski, se mostra ainda mais moderno enquanto indivíduo complexo, humano. Se viver é do início ao fim um work in progress, Quixote parece ter entendido há centenas de anos atrás que a vontade, a intenção e o propósito valem mais do que os resultados:

“O cavaleiro não deseja ter razão, considerando essa vontade uma impertinência e mesmo falta de educação. Ele deseja apenas combater contra o melhor inimigo: vencer ou ser derrotado é irrelevante, como demonstram as 40 lutas do personagem, perfeitamente divididas entre 20 vitórias e 20 derrotas. ” (p.98)

 VERDADES QUIXOTESCAS NA OBRA DE GUSTAVO BERNARDO

“O equívoco quixotesco me leva a propor o seguinte silogismo: ‘toda verdade é uma metáfora; ora, toda metáfora é quixotesca; logo, toda verdade é quixotesca. ’” (p.53)

Em minhas considerações finais, gostaria falar da enorme vontade de fazer um estudo aprofundado das referências e ações de natureza quixotesca em obras como Reviravolta, A filha do escritor e Me Nina que essa experiência literária me trouxe. De fato, gostaria de estender o estudo para todas as suas obras de ficção. No entanto, como escrevi esta carta com o intuito de discorrer especificamente sobre o impacto que Verdades Quixotescas teve em mim, acredito ser mais apropriado iniciar esse estudo em outra oportunidade.

 “As mãos de Escher compõem algumas reviravoltas, aninhadas uma dento da outra. ” (p.59)

Por ora, gostaria simplesmente de agradecer por mais uma leitura, por Quixote e por mais uma aula. Em ler e reler a sua obra sempre descubro um novo ponto de vista, um ângulo antes não contemplado ou uma nova verdade, consciente de que existem ainda tantas outras a serem apreendidas. Obrigada pela nova perspectiva e por me levar a ler Quixote - e por me fazer querer ler mais uma vez, pela primeira não ser suficiente, por querer enxergar tudo que na minha introdução a esta dimensão de realidade, um universo paralelo, eu não pude encarar. Acredito que em leituras subsequentes se possa descobrir ainda mais facetas e possibilidades do que Quixote é, do que ele faz e do que ele diz e com isso, aprender a desaprender e redescobrir um pouco mais.

“A multiplicidade de perspectivas narrativas se adequa à multiplicidade de facetas do personagem. Ora um herói ora um palhaço, ora um sábio ora um louco, ora um santo ora um desequilibrado, Dom Quixote vem para confundir e fazer pensar, se nenhuma das suas facetas dá conta da sua personalidade e, portanto, da sua verdade. ” (p.62)

Ao final da leitura, tudo que posso desejar é ser um pouco mais Quixote. Ao final de Verdades Quixotescas, só posso desejar ser um pouco mais cética e sempre um pouco mais Gustavo Bernardo. Por enquanto, tento apreciar cada etapa da jornada, cada desafio e nova paisagem. Tento não permitir que a frustração com as derrotas me impeça de voar ou que a euforia das vitórias direcione o caminho. Espero ser capaz de aprender e reaprender com o que cada uma oferece. Não sei se é possível alcançar o nível de ceticismo do Cavaleiro da Triste Figura, mas a sua tolerância diante de um universo de possibilidades e possíveis verdades me parece um bom horizonte a almejar.


Rio de Janeiro, 15 de julho de 2015

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com