A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Realismo e Machado


MACHADO: FICÇÃO DE UM REALISMO

Carlos Augusto Viana

 

Poucos escritores brasileiros têm, ao longo do tempo, desafiado tanto o olhar da crítica como Machado de Assis. Seus escritos se abrem, constantemente, a novas possibilidades de leitura, a partir dos mais diversificados campos do saber: Sociologia, Psicologia, História, Filosofia, Psicanálise, dentre outros, de tal sorte que não se esgotam

O professor, ensaísta e ficcionista Gustavo Bernardo acaba de publicar um intrigante ensaio acerca do enquadramento estético do "Bruxo de Cosme Velho"; com isso, põe em cheque a concepção, praticamente já incrustada em nossa cultura, de Machado de Assis como não só o fundador do nosso realismo, mas o seu representante maior.

A epígrafe do livro "O problema do realismo de Machado de Assis" já anuncia ao leitor a natureza da atmosfera que há de envolver a discussão: "A realidade é boa... o realismo é que não presta para nada" - trata-se de um excerto do próprio Machado de Assis.

Mas, a rigor, a que visa o ensaísta? A princípio, insurge-se contra o ato de esquematizar tudo, talvez fruto da crença de que, uma vez ordenadas, as coisas possam melhor ser explicadas e compreendidas. Desse modo, o ensino da Literatura converte-a num quadro estanque, limitado por cronologias, por temáticas, recorrências estéticas ou estilísticas.

Nesse sentido, faz uma blague em relação às fronteiras que separam a própria obra machadiana: à fase romântica, segue-se a realista. Percorre os textos de consagrados estudiosos da Literatura brasileira somente para desconstruir-lhes, passo a passo, a compreensão que houveram na ficção de Machado de Assis.

Destila ironia e notas de humor a respeito de rótulos atribuídos a Machado de Assis: "realismo superior"; "realismo de sondagem moral" (Alfredo Bosi); "um realismo enganoso" (John Gledson); "microrrealismo psicológico" (Eugênio Gomes); "um realismo interior" (Maussaud Moisés); "realismo autoral" (Sérgio Rouanet); por outro lado, aponta os que, como Antonio Cândido, jamais chamaram Machado de Assis de realista.

Ganha relevo nas questões do enquadramento estético de Machado de Assis a postura do ensaísta e crítico literário Roberto Schwarz em seus livros "Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis" e "Duas meninas". Desse crítico, o livro "Ao vencedor, as batatas!", que percorre, dentre outros, o universo de "Helena" - de Machado de Assis -, mereceria, penso, uma alusão. Em síntese, Gustavo Bernardo afirma que Schwarz, ao não distinguir realismo e naturalismo, realizando leitura sociológica, põe brumas sobre os trilhos.

Silviano Santiago também aqui comparece, posto, de modo irônico, na "galeria do bem", uma vez que o consagrado estudioso de Clarice Lispector vê Machado de Assis como representante do que assim classifica: "literatura de exaustão". Nessa categoria, os autores são fantasmas de outros; os livros, pedaços de outros.

Toda essa gama de estudiosos da Literatura é revisitada por Gustavo Bernardo como um elemento por que ele, a partir de reflexões anteriores, possa dar um corpo mais consistente à sua maneira de pensar a obra de Machado de Assis.

Uma questão se impõe: qual, em verdade, o intento maior desse ensaio? Antes, deseja, talvez, palmilhar a leitura de Machado de Assis, seguindo na mesma direção, mas em sentido contrário. Umberto Eco defende ser aberta toda a criação artística, isto é, sempre permite novas interpretações.

A propósito, o poeta e ensaísta Linhares Filho (agora professor aposentado da UFC) escreveu dois livros, abrindo também novas estradas em relação a Machado de Assis: "A metáfora do mar em Dom Casmurro"; "A latência sensual nas Memórias Póstumas"; nestes, o centro de interesse reside na presença de um forte erotismo, embaçado por metáforas. Se "o meu sol é uma ficção porque não arde nos olhos", o que é o real?


O Diário do Nordeste, 12/06/2011


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