A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Realismo e Machado


O PROBLEMA DO REALISMO DE GUSTAVO BERNARDO

Eduardo de Assis Duarte

 

Leve, bem humorado e nada machadiano quando se trata de ser direto e sem meios termos. Mais que isto, inusitado, corajoso, provocador. Noutra palavra, ainda, polêmico. Talvez enchesse todo o espaço desta resenha só à procura do qualificativo adequado ao novo trabalho ensaístico de Gustavo Bernardo: O problema do realismo de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Rocco, 2011). 

A pletora de adjetivos se justifica pela ousadia da tese por ele sustentada ao longo do livro: Machado de Assis não é, nem nunca foi um realista... E, muito menos, "o fundador do realismo no Brasil", como afirmam há mais de um século alguns manuais de história da literatura brasileira. Foi, em verdade, um adversário do realismo! Repito: para o crítico, Machado "escreveu contra toda forma de realismo", seja através da fabulação dos romances, seja nas asserções publicadas em suas crônicas e ensaios críticos.

Espantosa sobretudo para estudantes do ensino médio submetidos à periodização via estilos de época, a argumentação apresentada ao longo do ensaio não se limita à rejeição machadiana ao realismo-naturalismo vigente nas últimas décadas do século XIX. Estende-se às demais formulações e "sobrevivências" posteriores, até mesmo as surrealistas. Abraçada também por outros críticos, a tese é expressa há tempos com entusiasmada convicção pelo próprio Bernardo, tanto em palestras e cursos, como em ensaios publicados anteriormente, como "Machado de La Mancha contra o gigante do realismo", de 2008, ou "Realismo, ceticismo e escravidão: o caso de Machado de Assis", de 2010, só para ficarmos em exemplos mais próximos.

Ficcionista prolífico, autor dos romances O mágico da verdade, Reviravolta, Monte Veritá e A filha do escritor (em que explora o mexerico de uma possível paternidade atribuída ao autor de Esaú e Jacó e faz dele personagem de sua ficção), além de criador de narrativas voltadas ao público infanto-juvenil, Gustavo Bernardo pertence à geração de intelectuais formados no contexto da crise dos paradigmas, que se abateu com força de terremoto sobre o discurso das ciências humanas nas últimas décadas do século XX. Daí o ímpeto desconstrutor com que investe contra o dogmatismo para ele subjacente ao aprisionamento dos textos machadianos em classificações reducionistas. Leitor nada inocente das tradições literária e filosófica ocidentais, caracteriza-se acima de tudo como pensador avesso a mitos e verdades instituídas, a começar pela crença na objetividade e isenção do discurso científico, pretensamente orientado por uma razão soberana e imparcial.

Em seu trabalho, o crítico não se refugia naquele cômodo recanto representado pela assunção da primeira pessoa do plural e explicita a todo instante a subjetividade e parcialidade presentes em suas posições. Isto se evidencia já na primeira frase do livro: "defendo que a obra literária do escritor Joaquim Maria Machado de Assis não pode ser enquadrada em nenhum estilo de época, muito menos no estilo conhecido como realismo. No meu entendimento, Machado de Assis é 'apenas' machadiano."

Lançada a proposição que embasa seu ponto de vista, Gustavo Bernardo refuta o processo de "monumentalização" do escritor, que o afastaria do jovem leitor contemporâneo e que aponta para o atrelamento de ao menos parte da obra ao realismo, tido como forma literária superior. Ataca em seguida o "falso problema" representado pela divisão da obra em duas fases: a romântica, até Iaiá Garcia (1878); e a realista, a partir de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). O crítico se apoia nas reflexões de Ortega y Gasset sobre o novecentos como uma "centúria realista" para situar romantismo e realismo na vala comum do "estilo burguês" que lhes é subjacente, voltado sobretudo para "tentar denegar a ficção que pratica". Nesta linha, bate de frente com a própria noção de "estilo de época" presente nos manuais, para ele uma "tendência pedagógica" engendrada para "fugir da literatura ela mesma e abordá-la pelo filtro da história". Como resultado, tal operação terminaria por "pensar mais cada época do que cada estilo", numa disciplinarização historicista que deixaria a literatura em segundo plano e conduziria ao inevitável "cheiro de naftalina da matéria, dos livros, dos autores e dos próprios professores."

Por esta amostra pode-se deduzir o tom e o estilo do crítico, a partir de uma linguagem incisiva, que não dispensa o coloquial nem foge do jogo sutil de palavras. Tudo isto para fustigar o "pacto" que faz a ilusão realista se perpetuar para além do contexto de seu surgimento e adentrar os séculos XX e XXI. E, especialmente, a vinculação do escritor a este universo, colocando-o como um de seus mentores entre nós. Para Gustavo Bernardo a obra machadiana é perpassada pela filosofia cética, antidogmática e antirrealista por excelência, fato desconsiderado por parte da crítica, desconsideração esta aliada ao esforço de negação da afrodescendência de nosso maior escritor.

Após percorrer os sentidos filosóficos do termo, bem como sua vinculação, a partir de Ian Watt e outros, ao próprio DNA do romance ocidental, o autor adentra pela recepção machadiana no Brasil para destacar a dificuldade com que alguns críticos trabalham a questão. Para Alfredo Bosi, Machado é realista, mas dotado de um "realismo superior", de "sondagem moral", e não conformista, que o distinguiria de seus contemporâneos encantados com o progresso e o advento da República; para John Gledson, de um "realismo enganoso", a ser percebido apenas nas entrelinhas; para Eugênio Gomes, Machado cria um "microrrealismo psicológico"; ou um realismo "interior", logo não superficial, para Massaud Moisés; ou "autoral" e "shandiano", para Sérgio Paulo Rouanet; ou "fenomenológico" e "não ingênuo" para Patrick Pessoa. Gustavo Bernardo destaca a necessidade de complementar a categoria "realismo" com este ou aquele adjetivo como sintoma que trabalha contra a atribuição do adjetivo "realista" à obra machadiana e, ao cabo, contra a própria noção de realismo.

Em seguida, vai para o extremo oposto, chega a Antonio Candido e destaca que, em sua "obra magna", este cita o "mestre admirável" 37 vezes e em nenhuma delas o classifica como realista. Passa então a Afrânio Coutinho e afirma que o autor da Enciclopédia de literatura brasileira segue idêntica postura. E ainda recua ao século XIX para sublinhar que o questionamento a que se propõe hoje tem antecedentes de peso. José Veríssimo, por exemplo, é citado ao aplaudir o "escritor sem istas", ou seja, marcado pelo "não pertencimento a nenhuma escola". Vale-se ainda de ninguém menos do que Roberto Schwarz para sublinhar o "passo adiante" visto pelo crítico quanto ao realismo e ao naturalismo, qual seja, o da invenção machadiana de "narradores postos em situação", suspeitos, portanto, uma vez que são sempre "árbitro" e "parte interessada". Apesar desse importante detalhe, Gustavo Bernardo discorda da leitura de Schwarz, definida por ele como "atualização do realismo lukacsiano".

Concluído o panorama, o crítico enumera os próprios reparos machadianos ao estilo predominante em seu tempo e os situa no contexto da tradição cética abraçada pelo romancista, para a qual alcançar a realidade e a verdade absolutas nada mais é do que uma quimera. Analisa a ficção machadiana como texto que compõe a sua própria teoria e chama a atenção para o caráter metaficcional presente tanto nos contos como nos romances. Caráter este que aproxima Machado de Miguel de Cervantes, tal como demonstrado na leitura de Carlos Fuentes, em seu Machado de La Mancha (2001), endossada pelo crítico.

Bernardo destaca a conhecida assertiva do romancista, presente no ensaio "A nova geração", segundo a qual "a realidade é boa, o realismo é que não presta para nada." Lembra ainda a condenação do escritor à "reprodução fotográfica e servil das cousas mínimas e ignóbeis" e arremata com a irônica pá de cal machadiana na escola de Eça de Queirós: "porque a nova poética é isto e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha".

Perante toda esta argumentação, cabe porém ao leitor não esquecido do "Instinto de nacionalidade" indagar: e o Machado "homem de seu tempo e de seu país"? E aquele "sentimento íntimo" que liga o autor ao seu chão, presente mesmo quando trata de assuntos longínquos no tempo e no espaço? Esse leitor poderia invocar também Memórias póstumas e lembrar certo herdeiro do escravismo chamado Brás (!) que, embora morto, volta do fundo da cova todas as semanas para incomodar seus pares escravocratas leitores da Revista Brasileira, lembrando-os do fim que se aproxima, embora ainda estejam em 1880... Esse leitor, no caso, o autor destas mal traçadas linhas, entende o romance como obra de um "escritor caramujo", que dissimula sua crítica na autocrítica do narrador personagem, e indaga: como não ver aí o epitáfio antecipado do regime servil e da classe dele beneficiária?

Gustavo Bernardo por certo concorda com este leitor. E invoca Paul Dixon para destacar que as críticas machadianas ao realismo "não implicam qualquer descompromisso com a realidade". E se vale também das considerações de Silviano Santiago quando este afirma que a ficção machadiana "adquire plena historicidade ao integrar o processo da vida social a um outro processo, que é o da produção do conhecimento proporcionada pela linguagem artística" (grifos do original). Logo, o que se tem não é o escritor alienado e omisso quanto aos problemas de seu tempo e de seu país – outro equívoco tão presente e tão vivo quanto o que o considera um escritor branco e realista. O que se tem, salienta Gustavo, é uma crítica à literatura como reflexo banal do mundo que a circunda. O que não impede a reflexão igualmente crítica sobre esse mundo, seja pelo ângulo social, existencial ou ontológico.

Para terminar, tomo emprestadas as palavras de Marta de Senna na orelha do livro: "mesmo discordando eventualmente do autor, é preciso admitir: este é um livro que dá o que pensar."

Revista Machado de Assis em linha nº 8, dezembro de 2011


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