A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Realismo e Machado


MACHADO POR QUATRO

Fábio de Souza Andrade

 

No Brasil, ler e pensar a obra de Machado de Assis é tarefa e privilégio intelectual permanente. Mas quando há pretexto novo – efeméride como o centenário da morte, em 2008, por exemplo –, a chuva crítica sobre o universo machadiano engrossa: passa de mansa, devagar e sempre, a merecida enxurrada ensaística, aguaceiro de reedições anotadas.

O milagre da multiplicação de leituras é sempre fecundo. Seja pelo que revela, por falta ou abundância, da história do pensamento brasileiro, pois, testado contra o mesmo objeto, enigmático e resistente, o metro se vê medido; seja porque pode trazer à tona novos “Machados”, repelindo uma interpretação monumental e enrijecida (o “gênio da raça”) a que sua figura literária – complexa e fora da curva, ácida, saborosa e aliciante – perigosamente convida.

Quatro lançamentos recentes – dois estudos alentados, originalmente teses acadêmicas uspianas, um breve, mas agudo, ensaio-provocação carioca e uma coletânea comentada de crônicas pouco conhecidas – mostram como Machado é feito de riqueza plural, significação em camadas sobrepostas.

Ensinam muito, se acompanhados da vacina contra a tentação totalizante e explicativa, que faz da história literária um território de disputa belicista entre interpretações do tipo rei morto (Machado realista), rei posto (Machado cético ou moralista).

Não se trata de instaurar novos paradigmas, fazer caducar a crítica passada, mas de alargar a compreensão de um autor gigante.

Crônicas: A+B; Gazeta de Holanda são dois conjuntos de textos originalmente publicados na Gazeta de Notícias, entre 1886 e 1888, que chamam atenção, antes de tudo, pela forma peculiar escolhida pelo cronista.

O primeiro deles, A+B, sete crônicas assinadas com o pseudônimo de “João das Regras”, traz a mesma matéria vária e miúda do cotidiano, o mesmo observador arguto e fino da cena contemporânea, nada alheio à política, cético e irônico, conhecido de outras coletâneas do Machado jornalista, como Bons Dias!, por exemplo.

A singularidade está no emprego do diálogo, essencial para a constituição do narrador da ficção machadiana, e que aqui monopoliza os textos, lembrando o leitor de Diderot (Jacques, o Fatalista, Perspectiva) e Sterne e a grande impregnação do século 18 em sua obra.

Saúde pública

Já a Gazeta de Holanda recolhe quase 50 textos, escritos num intervalo de pouco mais de um ano e assinados “Malvólio”, em que Machado faz crônica em versos, quadras rimadas em redondilha maior, de um humor mais direto e pedestre, satírico volta e meia.

Os temas vão da saúde e ordem públicas (a ameaça do cólera, o entrudo e a capoeira nas ruas) à política econômica e ao destino dos escravos libertos nos estertores do Império.

Como muita água já correu na recepção do autor de Brás Cubas, é difícil fugir de um diálogo com as três vertentes principais de sua crítica: a que escava sua novidade formal e suas relações de família com grandes mestres (intertextual), a que o subsume a um olhar filosófico (existencial) e a que busca suas raízes no contexto brasileiro do século 19 (sociológica).

Os romances e contos do bruxo do Cosme Velho, ficção genial, devem ou não ser lidos também como um retrato do Brasil, mais ou menos alegórico, expressão carregada de experiência histórica localizável?

 O sim ou o não como resposta a essa questão, articulada à relação de Machado com o realismo novecentista, alinha a fortuna crítica em campos opostos e arma o que Gustavo Bernardo, professor da UERJ, chamou de O Problema do Realismo de Machado de Assis.

A tese central de Bernardo, argumentada com humor e elegância, é difícil de negar: Machado extravasa os estilos de época, e seus romances maduros não cabem na receita ortodoxa realista.

Em última análise, também a oposição entre os dois momentos de sua obra, o romântico e o realista, é funesta, uma convenção da história literária que se impôs a serviço de um didatismo redutor e de um conceito de literatura que a subordina à série histórica, neutralizando sua natureza radicalmente inventiva e sua força subversiva.

Mas, como o próprio ensaísta reconhece, o realismo é um conceito elástico e quer dizer coisas muito diversas para Lukács, Adorno, Auerbach ou Antonio Candido e Carlos Nelson Coutinho. Não coincide inteiramente com as obras que compõem o eixo central do realismo formal historiado por Ian Watt, nem com a fórmula dos naturalistas mais ferrenhos; isso é verdade, no máximo, para a vulgata mais rasteira.

Enunciação

Assim, o que parece ao ensaísta uma tentativa desesperada de salvar a ideia – sua adjetivação em respeito à especificidade da obra e do autor individual – talvez seja a única forma de fugir de uma história literária feita de abstrações, a que o ceticismo sem mais, como uma modalidade de “voz eterna” do homem, por exemplo, também pode se prestar.

Valendo-se da semiótica e do estudo da história das práticas discursivas novecentistas, Eduardo Calbucci e Ivan Teixeira, respectivamente, caminham na direção desse mergulho na singularidade do texto e da obra.

Tentando conciliar os estudos literários e o arcabouço teórico da linguística, A Enunciação em Machado de Assis, de Calbucci, mostra como o estudo da manipulação segura dos fios que confundem e distinguem, tematizam e ironizam o processo de enunciação e narração no interior do texto machadiano precisa o lugar da ironia, da crítica e da história em clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O estilo polifônico machadiano, o lugar das digressões emprestadas de Sterne e sua relação com a tradição menipeica, a importância da “presença enfática” e da desfaçatez volúvel do narrador defunto-autor, sua relação de afronta e cortejo com os narratários, a leitora e o leitor constantemente convocados ao texto, tópicos já conhecidos na fortuna machadiana, ganham corpo mais definido no embate direto e empenhado do crítico com a obra.

Ficção e imprensa

Em O Altar & o Trono: Dinâmica do Poder em ‘O Alienista’, Ivan Teixeira sugere uma aproximação da poética machadiana a partir da inserção do processo de composição da novela de Machado de Assis no mercado das letras novecentista – o casamento entre ficção e imprensa, inclusive – e no teatro do poder contemporâneo (incluindo a Questão Religiosa, que colocou a Igreja Católica e a maçonaria em confronto, na década de 1870).

Muito enfronhado em farta pesquisa documental, o cunho historicista do estudo está no exame das práticas discursivas e retóricas do tempo de Machado, propondo uma leitura alegórica da novela, editada primeiro num jornal de modas destinado ao público feminino, intimamente ligada à atividade jornalística do autor.

Nova é a atribuição de papel central à exploração da tradição dos caracteres literários, proveniente de Teofrasto e La Bruyère, principalmente, além da homologia estrutural entre figuras como Bacamarte e o Padre Lopes e a caricatura política então em voga.

Do volume, que ainda aproxima Machado e Poe da perspectiva de polígrafos de seu tempo, emerge uma figura não menos genial, só que mais conservadora de Machado, mais determinado e definido pelo século 19, da qual é possível discordar, sem, contudo, deixar de com ela aprender.
 

Machado de Assis, Crônicas: A+B/Gazeta de Holanda. Org.: Mauro Rosso. PUC-Rio/Loyola. 264 págs.
O Problema do Realismo de Machado de Assis. Gustavo Bernardo. Rocco. 120 págs.
A Enunciação em Machado de Assis. Eduardo Calbucci. Edusp/Nankin. 360 págs.
O Altar & o Trono. Ivan Teixeira. Ateliê/Unicamp. 432 págs.

 

Revista Cult nº 162,  outubro de 2011


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