A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Realismo e Machado


REVISITANDO MACHADO DE ASSIS

Jason Manuel Carreiro

 

I – Paixão por Machado

 Uma semana antes do meu pai falecer numa tragédia natural, o chamei para o meu quarto. Ele veio. Abri uma pequena gaveta e mostrei a ele dois gibis, um em cada canto no fundo da gaveta: “Olha, pai – tou colecionando revistinhas”. “Legal”, ele disse, “mas por que você fica lendo as coisas dos outros – por que não escreve também suas próprias histórias, desenha seus próprios gibis?”

Talvez ele tenha dito aquilo só por dizer, mas foi assim que comecei a colecionar livros e gibis compulsivamente, e comecei a também escrever livros, desenhar gibis, vender assinaturas para meus tios e tias, quando criança.

Quando li o Dom Casmurro, ainda muito jovem, não entendi nada. Mas, dicionário à mão, minha pretensão de adolescente me levou a enfrentar o texto de Machado: mais do que saber se Capitu tinha ou não traído Bentinho, eu queria entender aquele texto difícil – e foi por ali, na adolescência, que eu resolvi: se eu quero ser escritor um dia, seja publicando em inglês ou em português, eu tenho que ler tudo que esse Machado de Assis escreveu, eu tenho que escrever como esse Machado de Assis.

Claro que minha pretensão de adolescente jamais se realizou – li todos os romances, novelas e livros de contos de Machado, mas não li tudo – não li todos os contos esparsos, poesia, teatro, crônicas. E jamais nem cheguei perto de escrever como Machado. Mas sempre o li e reli. Mesmo durante a graduação em Filosofia. Eu sempre tinha um livro dele à mão.

Terminada a graduação em Filosofia, fui fazer mestrado em Letras, e a escolha foi óbvia: tinha que envolver Machado de Assis.

Tendo lido Nietzsche na graduação, vi algumas semelhanças entre estes dois expoentes da cultura universal e passei a pesquisá-los mais aprofundadamente. Passei a ler crítica machadiana e nietzschiana, crítica cultural e literária. Comecei a me relacionar de forma mais incisiva com as artes. E embora tenha desenvolvido um gosto ainda maior por livros e idéias, e passasse a ler diversos autores (li clássicos da filosofia e da literatura e fui também descobrindo novos autores), sempre mantive uma paixão incondicional por Machado de Assis. Considero o mestre brasileiro o maior e melhor escritor que já li, e sou tão fã dele, que mantenho na parede do meu quarto dois “pôsteres” de Machado desenhados pelo meu estimado amigo Wellington Machado de Carvalho (do Digestivo Cultural) e dados de presente (junto com uma também belíssima caricatura de Ingmar Bergman) quando me mudei de Belo Horizonte para Boston, nos EUA, em 2009.

Machado certamente ficaria constrangido de saber que sua imagem é agora fetichizada num pôster, e que fica exposta nas paredes de um quarto. Mas jamais consegui evitar tal fetichização, embora reconheça nela uma certa admiração infantil – além de leitor, sou meio que um “fã de carteirinha de Machado de Assis”. Até hoje leio tudo que sai sobre ele. Vou a palestras e conferências sobre ele. Sua obra continua a me desafiar, a me motivar, a me pôr pra pensar. A me incomodar.

Durante o mestrado, eu tive aulas com um jovem professor de literatura que fazia uma interessante interseção com novas mídias e comunicação social. Gostava muito das aulas de teoria da adaptação dele. Mas discordava veementemente de uma observação que ele fazia em referência a alguns clássicos brasileiros: ele afirmava que já se disse tudo sobre Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis, e que achava um desperdício de tempo revisitar o chamado “cânone” brasileiro. Esta afirmação nos leva à segunda parte deste texto – vamos lá?

II – Machado de Assis e a escravidão & O problema do realismo de Machado de Assis

Os dois mais recentes livros sobre Machado lançados no Brasil provam que o meu antigo professor de literatura e comunicação social estava errado: Machado de Assis e a escravidão, organizado por Gustavo Bernardo, Joachim Michael e Markus Schäffauer, reúne uma série de ensaios que desdobram e refletem o original estudo lançado por Eduardo de Assis Duarte em 2007: Machado de Assis afro-descendente.

O problema do realismo de Machado de Assis, de Gustavo Bernardo, lançado há apenas alguns meses, é um originalíssimo (para falar como José Dias) estudo que visa a enfrentar, sem tédio à controvérsia, a falaciosa classificação da obra de Machado de Assis dentro da categoria “realista”.

Ora, com tantos temas para serem revisitados, como pode se afirmar que tudo já foi dito sobre os clássicos? Em linhas gerais, Machado de Assis e a escravidão e O problema do realismo de Machado de Assis visam a confrontar o “embranquecimento” a que a cultura brasileira submeteu o mestre ao longo destes 103 anos após sua morte.

Visando retirá-lo das categorias “romântico” e “realista”, buscam afirmar a sua negritude (visível em sua máscara mortuária), a sua consciência da escravidão (diversos críticos consideraram-no omisso) e o caráter afirmativo (e não niilista, ressentido, como apregoaram alguns) de sua obra.

Se Machado dialogou e emulou o mais fino da cultura europeia (Cervantes, Shakespeare, Camões, Montaigne, Platão, Sterne, Schopenhauer – só pra citar alguns), ele foi genial mostrando-se consciente dos problemas sociais do fim do XIX, e também incorporou elementos da cultura africana. Ele também possuía o dom de analisar com fineza e ceticismo a política, cultura e sociedade do período.

Ele estava longe, muito longe, de ser um “realista”, ou seja, ele estava muito longe daquele ideal de estrita “representação do real” que a referida escola propunha. Para Machado, a arte transcende a descrição do que convencionamos chamar de “real”: a arte, mais especificamente a literatura, subverte o real, suspeita dos dogmas, põe o “real” numa situação desconfortável, provando que ele é insuficiente.

Novos estudos sobre Machado, Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector surgirão. Categorizações cairão e outras serão criadas. Tentativas de reduzi-los a uma escola serão reavaliados e novos termos serão cunhados. Esse é o trabalho incessante da crítica. E é por estas e outras que provo que o meu antigo professor estava errado: os clássicos só são clássicos porque sempre serão revistos, relidos e revisitados.

E os clássicos só serão revisitados, porque, ao contrário do que pensam, não é a academia que os define: é o gosto popular. É a admiração de uma criança que talvez nem os entenda.
 

Revista Aguarrás, nº 32, julho-agosto 2011


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