A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


Realismo e Machado


O PROBLEMA DE MACHADO DE ASSIS

Marcela Santos Castelli

 

Quando uma autointitulada elite intelectual se apropria de algo que vem e fala para a cultura popular, ela tenta primeiro dificultar o acesso a essa coisa. O primeiro passo é deformar para que os outros, fora do clube, não possam se identificar, se sintam inferiores de alguma forma àquilo. Machado era negro. Negro não pode. Capitu era negra. Põe uma atriz de olhos verdes, rápido! Machado era autodidata, ria-se dos ridículos da realidade mas não odiava a realidade em si. Muito pelo contrário. Vamos então enquadrá-lo, como se enquadra tudo. Machado era realista, certo? Mas e tudo que ele disse contra o realismo? Ah, o que importa o que ele dizia? Se a elite diz que era realista, ele era realista. Pronto, acabou. Que bom que pra você e para tantos outros, não, não acabou.

Crianças e adolescentes são obrigados e não incentivados a ler Machado da forma como você disse: com uma distância assustadora. O que se faz com o que assusta mas que não dá pra fugir? Desdenha-se, é visto como produto instituído e já se lê esperando não alcançar. Isso é um crime. Transformar o que poderia ser libertador num enlatado.

Eu nunca tinha pensado a respeito do desserviço que uma supervalorização do realismo traz pra ficção. Logo ela, bem necessário para tornar nossa concepção de mundo mais ampla, mais livre. O realismo quer o concreto, nega a própria qualidade subjetiva da realidade em si, dizendo que esta é puramente ruim. Por que renegar a ficção? E agora vejo que todas as vezes que alguém me disse: Marcela, vamos ser realistas... na realidade o que estava sendo sugerido era acrescentar uma dose dupla de pessimismo e reavaliar.

Quando eu leio ficção, quero encontrar uma nova eu.

Não preciso me identificar com ocorrências concretas, mas criar um vínculo que possa me reinventar, mudar uma visão. É interessante que isso me lembra uma situação em que eu reescrevi a mesma história muitas vezes porque que eu queria articular nela um determinado estado de espírito e só reescrevendo eu consegui descobrir que estado de espírito era esse.

Por ter raízes numa situação real que eu vivi, foi difícil por muitos meses identificar qual era o sentido que eu precisava ali e me desprender do literal. Só me redescobri escrevendo. Como doía, o conto ficou amargo e ressentido em seus primeiros cinco zilhões de rascunhos e só nas últimas semanas entendi o sentido que a experiência emprestava para a ficção e pude criar algo livre dos meus próprios sentimentos e talvez assim resolver uma meia dúzia de recalques internos.

Não sei se essa é uma forma muito egocêntrica de escrever, mas dessa vez, pelo menos, escrevi algo de que gostei e ao mesmo tempo fiquei um pouco mais leve. Não por repetir situações concretas, mas por expiar uma sensação suprimida. Quando consigo transformar, acho que escrevo algo de bom. E é preciso que a vida do livro, da página, não tente não ser um enigma, até porque o que julgamos real é por si só um enigma. Todos que nos cercam ao longo da vida, quem chega e quem vai, responde sempre alguma coisa e deixa um universos de novos questionamentos. E isso não precisa e não deve ser sólido, fixo. Deve mesmo ser fictício para que, se algum dia alguém quiser ler, possa ver a si mesmo através da sensação, não da contagem dos fios de cabelo da protagonista. Isso que eu gosto tanto em Reviravolta (e agora em Me Nina também!). Os enigmas, as várias possibilidades, a aura de sonho. Simbolismos bem empregados são muito ricos porque aquilo que dizem conjuga não só o texto e o autor, mas a vivência e disposição de quem lê.

Pra existir, pra seguir respirando, eu preciso abraçar a pergunta, a atual e sempre a próxima. Acho que a única Verdade universal é que não há verdade alguma além da necessidade de buscar. Pra viver eu preciso de sonhos, preciso do outro e de uma procura que só termina quando eu mesma expiro, pra ser continuada por outrem.

“Precisa-se repetir muitas vezes que o ponto mais alto e mais forte da arte literária se encontra no realismo porque, talvez, o realismo seja precisamente o ponto mais fraco e mais baixo da arte literária.”

E deve ser mesmo, já que nem quer ser arte nem literária, quer ser tijolo e argamassa. Que o seja, nas minhas paredes, não nas páginas dos meus livros.

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