A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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"Ao começar a dominar as habilidades do escrever e do falar, o caminho que se abre à frente é fascinante. Preenche todas as fantasias de um homem reconhecer um poder que é seu, que só depende dele. Acontece com o jogador de futebol, no instante em que experimenta os primeiros dribles: eu posso. A persistência, o treinamento, a atenção consigo mesmo aperfeiçoam a habilidade, aperfeiçoam os dribles, e o espelho brilha: eu posso muito! Daí para “eu posso tudo” é um passo curto, tão curto que a habilidade deixa de corresponder às fantasias e as fantasias funcionam sozinhas – deixando o sujeito sozinho, magoado reserva de time de várzea, não compreendendo por que, se tudo pode, tudo não faz.

Acho ótimo o paralelo com o jogador de futebol, já que as minhas duas principais fantasias desde pequeno foram estas: escritor famoso e artilheiro da nação. No segundo caso a realidade se encarregou de não ajudar em nada. Se dificilmente conseguia mais de três embaixadinhas, dificilmente me permitiria fantasiar que pudesse tudo. Já no primeiro caso, a realidade forneceu bastante munição. Num país de analfabetos, dentro de uma família classe média sem a menor média de leitura, quanto mais de escritura, educado numa escola de professores oprimidos, poucos dentre os mestres sabendo preencher uma página com clareza, qualquer princípio de habilidade vem saudado como prenúncio de genialidade. Em terra de cegos, o caolho se ilude muito mais fácil.

Daí o risco grande, para aquele que conquistou o mínimo de habilidade com a palavra, de interromper o aprendizado e o esforço para repetir as palavras que lhe renderam elogios. Pode se tornar uma pessoa tipo circunspecta (ô palavrinha antiga), seríssima, chatíssima, responsabilíssima, ou então uma pessoa inteligente mas cínica, que defende a cada momento, e brilhantemente, a opinião que lhe renda mais juros e correção monetária.

A redação ética toca sempre na convivência. Sabe que se faz para afirmar um sujeito, para buscar uma verdade e para alimentar e presentear os demais sujeitos com a diferença. O discurso, em especial o discurso escrito, não pertence apenas àquele que lhe dá a forma final. Pertence também à família nuclear e à família mais global de onde o sujeito se origina, uma vez que ele organiza e transforma as ideias latentes no seu meio. Pertence ainda aos leitores que porventura cruzem o caminho do texto, pois o entenderão e dele farão uso na medida dos seus valores e das suas forças.

Se desejo encontrar a opinião perdida, preciso criar condições para a existência de opiniões. A primeira delas é a construção de uma moral simples, clara, não ambígua, entre aqueles que escrevem e que lêem. Uma moral, não um conjunto de leis prescritivas e pouco móveis, macetes e conselhos bobocas para bem-redigir. As outras condições se fazem na luta contra o silêncio morto (há uma espécie de silêncio vivo, o amoroso, muito interessante) e contra a ignorância.

Recuperada a opinião, importa saber: ela é nossa, no sentido de que fomos responsáveis pela sua articulação suada, e permanecemos responsáveis pela sua divulgação e defesa apaixonadas, mas não será “nossa”, no sentido burguês de posse. O que penso e digo pertence a todo mundo, mesmo que parte deste todo mundo não saiba disso. Como os meus pais, que me deram ideias para cozinhar e subverter. Como os operários, os trabalhadores braçais: nesta sociedade em que estamos eles queimam os músculos para que eu, com um certo conforto, queime apenas a cuca. Como os amigos, que movimentam com a sua intenção, com os seus olhares carinhosos, o calor dos meus dedos à volta da pena. 

Há, portanto, que dividir o peso da minha habilidade com todos eles – justo para não ser um peso mas apenas um cara que escreve legal, não o futuro melhor qualquer coisa do mundo (e “eu” aqui, leitor, quer dizer você também, que só chegou neste último capítulo porque deve gostar muito de ler e de escrever).

Marina Colasanti, escritora etíope/brasileira, representou o que estou dizendo através de um conto: 'No colo do verde vale'. Neste conto, o Tempo é um senhor cansado, cansado de carregar todas as vidas nas costas. Tão cansado, que começa a pensar em parar um instante e se assusta com a própria ideia. Imagina que, se parar, os filhos não se acabam no ventre das mães e os passarinhos nos ninhos não aprendem a voar. Se parar numa cachoeira, a água para também. Se parar ao sol, o sol para de brilhar. Mas a ideia insiste com ele, e acontece num liso, lindo e lento vale. Reconhecendo naquela paz todo o seu desejo, o Tempo para. Espraia-se no vale, estendendo-se longo como ele mesmo não sabia ser. Para, e espera o desastre: o fim do sol, o fim dos insetos, de tudo o fim. Entretanto, não acontece o desastre:

Mas chegou um mugido de longe, estremeceu um coelho no mato, uma folha caiu. Para surpresa do Tempo, movia-se o mundo. – Não sou eu, então, que carrego isso tudo? – perguntou-se intrigado, sentado. E debruçado para olhar de perto o mundo pequeno que nunca tivera tempo para olhar, viu o grilo saltar vergando fios de grama, viu o escaravelho marcar sua passagem rolando a bola de esterco, a serpente escorrer em curvas, cada um no seu ritmo, avançando, tecendo a rede de que ele acreditava segurar as pontas. E ali, inclinado sobre a vida, descobriu aquilo que nunca suspeitara. Não era ele com seus passos que ordenava tudo, que comandava o salto do grilo, o vento na espiga, as pás de moinho. Mas eram eles, grilo e espiga, cada um deles que, com seus pequenos movimentos, faziam os passos do Tempo. Então abriu as mãos, soltou a carga que acreditava carregar, deitou a cabeça. Serena, a nuvem se afasta. O sol volta a desenhar sombras. No colo do verde vale, dorme afinal o Tempo, enquanto filhotes amadurecem nos ovos.


Cabe-nos produzir apenas o nosso próprio esforço. O nosso próprio texto, para devolver às pessoas, transformado, tudo o que elas nos deram (inclusive o que tenha sido desagradável). Soltar das costas pesos falsos, como o peso do Tempo, e aprender a andar e descansar. Aprender a falar e a silenciar (diferente de se calar). Aprender a escrever e a ler – admitindo que nunca se aprende, enfim, porque se está sempre aprendendo, desconhecendo e reconhecendo, passo por passo. Vida a vida.

Entretanto, há pesos verdadeiros, e alguns bastante terríveis. O operário, que trabalha todos os dias da sua curta existência nas mesmas tarefas, carrega um peso tremendo: o de sobreviver às custas de perder quase tudo de si, como a alegria, a dignidade, a curiosidade (e mesmo partes dos seus braços, amputadas pelas máquinas). O chamado cidadão comum, geralmente um burocrata infeliz da classe média, carrega outros pesos tão duros quanto: o de ser ele mesmo improdutivo, comendo às custas de lavradores e operários explorados que não conhece, transtornada a sua natureza numa massa amorfa e passiva, que se dilui na multidão como o choro de um pombo (que a gente não consegue ver, de tão perdido e pequeno).

O intelectual, o escritor, que se arvora em pensar e escrever no Terceiro Mundo, num país de analfabetos e semi-analfabetos, acostumado a andar ou a engatinhar através do favor e do jeitinho nacionais (outros apelidos da corrupção e da humilhação), carrega pesos também bastante... pesados. Dilemas: aceitar o namoro com o Primeiro Mundo e fazer carreira acadêmica, mestrado, doutorado, o escambau a quatro no exterior, ou pensar o seu bairro, a sua ditadurazinha, as fantasias e as ausências dos seus contemporâneos e conterrâneos. A primeira opção custa todo o tempo da gente, por status precário e salário idem. A segunda opção custa um certo provincianismo e pode custar o desprestigio social, o desemprego, a solidão.

O mito de Sísifo concretiza estes pesos, na forma de um rochedo enorme. Sísifo era um mortal comum que conseguiu a proeza de acorrentar a Morte. Plutão, o deus-inferno, não pôde suportar o espetáculo do seu império deserto e silencioso, já que com a Morte inativa ninguém aparecia. Com a ajuda de Marte, o deus da guerra, liberta a Morte das mãos do seu vencedor. Os deuses, para não deixar semelhante atrevimento sem castigo exemplar, condenaram Sísifo à imortalidade, na qual empurraria sem descanso um rochedo até o cume de uma montanha de onde a pedra cairia de novo, em consequência do seu peso. Sísifo teria de descer e empurrar novamente e sempre a grande pedra, para ela cair de novo e ele carregá-la de novo. Com alguma razão, os deuses imaginaram: não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. 

Albert Camus considera Sísifo o próprio herói do absurdo. O seu desprezo pelos deuses, o seu ódio à morte e a sua paixão pela vida lhe valem este suplício indizível, em que o seu ser se emprega em nada terminar – uma espécie de preço a se pagar pelas paixões desta terra. 

Este preço-tragédia acaba se tornando a sua grandeza, a sua beleza. No momento em que Sísifo vê a pedra resvalar em poucos instantes para o mundo inferior, de onde será preciso trazê-la de novo aos cimos, ele pensa. Toma consciência de que é um proletário dos deuses; de sua impotência e imensa revolta; da extensão da sua miserável condição humana. Pela consciência, então, ele vence. Porque não há destino que não se transcenda pelo desprezo. Por isto, Camus se interessa por Sísifo no momento da descida à planície:

É durante este regresso, esta pausa, que Sísifo me interessa. Um rosto que sofre tão perto da pedra já é, ele próprio, pedra! Vejo esse homem descer outra vez, com um andar pesado mas igual, para o tormento cujo fim nunca obedecerá. Essa hora que é como uma respiração e que regressa com tanta certeza como a sua desgraça, essa hora é a da consciência. Em cada um desses instantes em que ele abandona os cumes e se enterra a pouco e pouco nos covis dos deuses, Sísifo é superior ao seu destino. É mais forte do que seu rochedo. (...) Ensina que nem tudo está, que nem tudo foi esgotado. Expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis. Faz do destino uma questão do homem, que deve ser tratado entre homens. Toda a alegria silenciosa de Sísifo aqui reside. O seu destino pertence-lhe. O seu rochedo é a sua coisa. Da mesma maneira, quando o homem absurdo contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos. No universo subitamente entregue ao seu silêncio, erguem-se as mil vozinhas maravilhadas da terra. Chamamentos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória. Não há sol sem sombra e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim, e o seu esforço nunca mais cessará. Se há um destino pessoal, não há destino superior; ou, pelo menos, só há um que ele julga fatal e desprezível. Quanto ao resto, ele sabe-se senhor dos seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta para a sua vida, Sísifo, regressando ao seu rochedo, contempla essa sequência de ações sem elo que se torna o seu destino, criado por ele, unido sob o olhar da sua memória, e selado em breve pela sua morte. Assim, persuadido da origem bem humana de tudo o que é humano, cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, está sempre em marcha. O rochedo ainda rola. Deixo Sísifo no sopé da montanha! Encontramos sempre o nosso fardo. Mas Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta os rochedos. Ele também julga que tudo está bem. Esse universo enfim sem dono não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha cheia de noite, forma por si só um mundo. A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz."


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