A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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A REDAÇÃO INQUIETA DE GUSTAVO BERNARDO
Joana M. Eleutério



GUSTAVO BERNARDO GALVÃO KRAUSE é o nome completo do autor, que nasceu no Rio de Janeiro em 1955. Ele é professor de Teoria da Literatura e autor de outros ensaios, um livro de poemas, alguns romances e diversos artigos. Organizou também algumas obras coletivas como as Margens da Tradução (Caetés, 2002), dentre outras. Já recebeu diversos prêmios de literatura e uma menção honrosa do Jabuti. É mestre em Literatura Brasileira (UERJ,1992), doutor em Literatura Comparada (UERJ, 1995) e fez estágio de Pós-doutorado em Filosofia (UFMG, 2006).

Redação Inquieta é um ensaio, na definição do próprio autor. O livro é composto de uma pequena introdução, e mais sete capítulos: Ato, Método, Maniqueísmo, Erro, Estilo, Dialética e Ética. Cada um deles se divide em subtópicos, facilitando a reflexão e a compreensão da intrigante teoria ética da redação. Um conjunto de 44 itens compõe a referência bibliográfica, que Gustavo Bernardo intitulou de Dívida. O primeiro capítulo é composto em seis tópicos: Ensino, Teoria, Espelho, Rede, Rasgo e Fala do Mundo. Todo capítulo inicia-se com uma citação, em epígrafe. E a do primeiro capítulo, Ensino, é de Cacaso: “Pra se combinar comigo tem que ter opinião.”

Antes de iniciar a tessitura dos comentários, porém, analisaremos o contexto histórico em que o livro foi escrito. Parece-me que o livro teve cinco edições, sendo a última de 2000. A primeira edição é de 1985 e esta terceira edição, que tenho em mãos, é de 1988, quando o país saía da Ditadura Militar. Tancredo Neves, um presidente escolhido por eleição indireta havia falecido e o seu vice, José Sarney governava o país. No ano seguinte, teríamos a primeira eleição direta para Presidente da República, quando o atual presidente Lula perdeu a eleição para Fernando Collor. Este não concluiria seu mandato pelo envolvimento com o chamado Esquema PC – uma evidência de que grande parte do dinheiro arrecadado durante a campanha eleitoral era irregular e envolvia altas somas, dando origem a uma volumosa sobra não declarada, contrariando o que determinava a legislação eleitoral vigente. O nosso primeiro e polêmico caso de impeachment foi, então, levado às suas últimas consequências.

O autor, Gustavo Bernardo, era um jovem de apenas 33 anos. Ele só viria a fazer seu curso de mestrado em 1992, como vimos acima. A obra em questão reflete aquele momento histórico do país, trazendo-nos a imagem de um jovem apaixonado e engajado, com uma formação político-ideológica de esquerda e muito influenciado pelos principais teóricos socialistas, como Marx e Engels. Tinha ainda uma formação humanística e religiosa profunda e marcante, a que o próprio autor se refere na última página de sua Redação Inquieta, declarando:


Desconfio muito de mim. De minha formação romântica, semi-religiosa, semi-tecnológica, semi-idealizada. Dos meus chavões e cacoetes. Somente o tempo, e principalmente, os leitores, poderão ir me mostrando como valeu a pena. Ou não. (p.182)


O cenário daqueles anos oitenta mostrava-nos, então, a abertura política ainda engatinhante e as pessoas quase reaprendendo um novo estilo de vida, reaprendendo a realmente “dizer”. Era como se todos quisessem “desengasgar”, depois de tantos anos de forte censura. E Redação Inquieta nos mostra exatamente isto.

Gustavo Bernardo começa seu livro fazendo uma crítica às muitas publicações acadêmicas e jornalísticas daquela época. Tais publicações, partindo de uma seleção das “besteiras da juventude”, retiradas das redações de vestibular, criticavam a “desexpressão” dos jovens. E o autor, então, nos diz que era mesmo “DESEXPRESSÃO – mistura de desespero com expressão.” Tamanho era o problema, que a desexpressão de uma geração calada, mesmo quando escrevia alguma coisa, continuava calada. (p. 3). Portanto, nada dizia.

No entanto, o autor nos diz que, diante de um olhar mais atento, o problema da desexpressão aparecia ainda mais amplo e mais profundo. Nos livros didáticos, editoriais de jornais, discursos políticos, teses de juízes e doutores e até mesmo na redação da jovem constituição cidadã, a CF/1988. Segundo ele, a preocupação ética com o discurso estava realmente em falta no mercado. “Desengasgando-se”, como tantos jovens de sua geração, Gustavo Bernardo nos alerta para a grande responsabilidade de todos os que desejam defender o prazer de pensar e descobrir o que havia por trás do desejo de dominar e vencer, inclusive, entre os estudantes. “Um modo dinâmico de explicar a confusão verbal de alguém está no enxergá-la como um sintoma visível de outras confusões mais profundas.” (p.19)

O autor lista quatro elementos, como se vê abaixo, que comporiam uma espécie de cortina, que escondia outros agentes da “desexpressão”. Uma estrutura, que ficava por trás da propagada desarticulação do pensamento dos jovens, apresentaria:


1. ESCOLA – fragmentando o conhecimento em disciplinas estanques, fragmentava também as frases e o raciocínio dos alunos.
2. PROFESSORES – mal pagos e mal estimulados – muitas vezes, eram também incapazes de redigir sequer o seu plano de curso.
3. FAMÍLIA – não lia e não escrevia nada.
4. ESTADO – encostava a Educação no canto das verbas, censurava as poucas palavras que saiam das universidades e dos artistas e ainda fazia ironias covardes sobre a geração da gíria.


O autor conduz sua reflexão para os modos de aprendermos a falar e a calar, afirmando categoricamente: “Quem cala não consente. Quem cala, ou está se guardando ou está se submetendo. A segunda opção é mais comum: quem cala se submeteu.” (p. 40) Em tom de denúncia, ainda nos diz que a maioria de nós aprende a escrever em uma redução da vida, chamada “sala de aula”. Gustavo Bernardo critica a redação escolar que faz com que o ato de escrever perca o seu caráter primário e fundamental de auto-afirmação, assumindo o seu sentido inverso: o da autonegação. Diz que escrever deve ser a ação de nos reproduzirmos, nos multiplicarmos e nos imortalizarmos através de nossas palavras. E para isto será necessário desmistificar e superar a idéia de que escrever (escrever bem, dizer algo realmente significativo) é resultado de um dom ou de uma técnica.

Na página 20, o autor, no penúltimo parágrafo, faz uma reflexão muito interessante e pertinente sobre a desexpressão ou expressão obscura, como uma resposta do indivíduo às normas desindividualizantes da sociedade:


Mas aprende também que algumas palavras e certas verdades não podem ser ditas de maneira nenhuma. Daí, fica fulo da vida e desenvolve um garrancho que nem ele mesmo entende. (p.20)


O autor analisa sua trajetória, dizendo-nos que a origem e a necessidade de escrever nele se desenvolveram porque ele descobriu o prazer de pensar e o direito de escolher suas leituras, influências e modelos longe da escola. De onde teria nascido o grande e imprescindível “desejo de transformar o mundo à imagem e semelhança de minhas melhores palavras.” (p. 5). O autor nos convida ainda a refletir sobre o tipo de leitor que o professor é. Um leitor que se vê normalmente em um trabalho imbecilizante, cansativo, desumanizante e muito mal pago. E é este o único leitor que os alunos têm para dialogar com eles, a partir do exercício de sua redação = red+ação. Redação, que é assim definida por Gustavo Bernardo:


... ação de tecer a rede dos acontecimentos e dos relacionamentos, guardando o acontecido na memória verbal das gerações, pescando o acontecível no extenso lago das falas e ausências testemunhadas pelas palavras daqueles que falam e se falam. (p. 17)


E Gustavo Bernardo ainda nos diz também:


... aprender a escrever contém dificuldades nada técnicas. Clarear a redação implica chamar o outro a penetrar-me. Dispor-me a tanto é questão de desejo ou de acirrada luta entre o desejo e o medo. (p. 20)


O autor acredita que, para evitar a desistência, há que se escrever e rasgar, escrever e rasgar. Ou seja, um texto para ser bom tem de ser elaborado, rascunhado, refeito quantas vezes forem necessárias. Ele diz não acreditar em inspiração e por isto defende o rascunho e o múltiplo esforço de fazer e refazer até que esse movimento se esgote na obra. “A redação, no sentido da cuidadosa rede de ações se faz no rasgo.” (p. 22) Segundo Gustavo Bernardo, a redação com essa qualidade, se faz sem programar tempo e fugindo dos padrões. Para ele, a redação é também uma maneira de articular e organizar o pensamento, de tocar e conhecer o mundo.

Percebe-se, pelo que expusemos até aqui, que o autor preocupa-se muito com a questão da capacidade de argumentação, como essencial para o ato de escrever. Muito poético e filosófico, o autor tece seu ponto de vista através da discussão dos tópicos, partindo do conceito de Método, título do segundo capítulo: “método = meta (através de) + odos (caminho)”. Logo, método é o caminho através do qual se vai a algum lugar. Este capítulo ainda traz para a discussão os conceitos de método indutivo, dedutivo e também os limites de cada um deles.

O terceiro capítulo, Maniqueísmo, traz esse conceito para o foco da discussão. Segundo o autor, o maniqueísmo é um forte entrave à formação de opiniões e de argumentos, portanto um elemento bloqueador do exercício da redação. Gustavo Bernardo nos traz um pouco da origem histórica do termo, justificando o motivo da discussão do tema e apontando os problemas que ele traz para a redação: como a repetição de lugares comuns, a reprodução de preconceitos e o raciocínio circular e sem nexo. Dizendo-nos que. “Aquele que se repete de fato não se expressa.” (p. 53) No último tópico do capítulo, Das impossibilidades, o autor nos diz que os problemas devem ser considerados a partir de suas relações.


... um acontecimento dinâmico e inagarrável, porém sempre possível de ser compreendido. O raciocínio maniqueísta bate com o rosto na impossibilidade. O raciocínio dinâmico, que não aceite duas alternativas excludentes, coloca-se frente a possibilidades. (p.59)


Gustavo Bernardo nos diz que o pensamento maniqueísta serve apenas à reação, que seria a negação da ação. Está a serviço dos reacionários, imobiliza o mundo e se imobiliza também. O autor conclui bem ao seu estilo e fazendo uma brincadeira com as palavras Impossível e Demônio:

Importante repensar, e mesmo refazer, o sentido de palavras mui antigas. Se “impossível” e “demônio” bem podem nos dizer mais do que até hoje nos disseram, então nós mesmos podemos descobrir mais sobre qualquer questão do que até hoje nos ensinaram. (p. 62)


O capítulo seguinte, ERRO, traz para a discussão o seu valor, o conceito e a utilidade ou des-utilidade dele. Afirma que o erro é necessário ao conhecimento, desde que não se repita, trazendo-nos ainda um pouco da origem histórica do conceito de sofismas – indutivo e dedutivo. Fazendo a exposição do primeiro, de maneira bastante didática, o sofisma indutivo é classificado e descrito por meio dos seus cinco tipos: círculo vicioso, estatística tendenciosa, a fuga do assunto, o argumento autoritário e a confusão entre causa e efeito.

No capítulo ESTILO, Gustavo Bernardo discute questões de estilística e gramática, dizendo que a genialidade da transgressão depende do amplo conhecimento lingüístico. Conhecer para subverter, como podemos ver na maestria do fazer poético até mesmo dos romances de Guimarães Rosa. “As respostas são coletivas, e por isso servem ao gramático. As dúvidas são únicas, e daí servem ao estilo.” (p. 88) O autor nos alerta para a perigosa estratégia, normalmente usada no ensino de redação. Qual seja, “balizar a questão do estilo pessoal em dois limites perigosos: a exigência da correção e a exigência da criatividade.” (p. 89) Ele chama (e eu adorei) o gramático de “delegado da língua.” Gustavo Bernardo conclui o capítulo citando Barthes:


Escrever implica calar-se, escrever é, de certo modo, fazer-se “silencioso como um morto”, tornar-se o homem a quem se recusa a última réplica; escrever é oferecer, desde o primeiro momento, essa última réplica ao outro. (p. 90)


No capítulo DIALÉTICA, a epígrafe é de Hermann Hesse: “Quem quiser nascer tem que destruir o mundo.” Gustavo Bernardo, então nos diz logo de cara: “Dialética” é uma palavrinha (eu diria, palavrão) que tem servido para tudo, especialmente para assustar leitores. O autor nos apresenta tanto a definição histórica como o conceito moderno do vocábulo. Provavelmente, este é o capítulo mais pesado porque discute o tema a partir da Grécia Antiga até chegar aos autores e aos conceitos do socialismo histórico e moderno. Sem discutir muito o capítulo, gostaria de deixar as citações abaixo:


Se o pensamento deve ser dinâmico e inquieto, a perplexidade dever ser não só admitida, como bem protegida. (p.100)

Há que se fabricar o próprio pensamento no ato de pensar, de registrar o pensamento pela escrita. Como os cometas cortam o vácuo do cosmos e lhe dão sentido, as palavras inquietas emergem da perplexidade e nos dão, por instantes, sentido. E o sentido acontece quando as nossas respostas trazem nas costas, com carinho, novas perguntas. (p. 101)


Concluindo o primeiro tópico do capítulo, Gustavo Bernardo cita Albert Einstein:

Tomamos o nosso mundo significativo pela coragem de nossas perguntas e pela profundidade de nossas respostas. (p.101)


E o nosso, então jovem professor, continua com suas perguntas através, dos outros tópicos deste capítulo tão dialético: unidade, natureza, espaçotempo, deus e desejo. Gustavo Bernardo então inicia seu diálogo com os argumentos relacionados ao assunto para os abrir em suas contradições, como ele próprio declara. E ele nos diz, por exemplo, que “A resposta depende do lugar em que se responde; se dele é possível enxergar além dos papéis timbrados.” (p. 105)

Ele nos diz da importância das partes, que fazem a diferença e, fundamentalmente, caracterizam a verdade de uma resposta. E ainda, como homem de formação religiosa, também afirma que “em uma teoria sobre redação, falamos sobre a busca da verdade, através do nosso verbo. O conceito de Deus atravessa esta fala decisivamente.” (p.125) Ele nos traz os conceitos de Deus para a discussão e conclui que Ele “é que tem sido feito à imagem e semelhança dos limites sublimados do homem.” (p. 127) Gustavo Bernardo, quase numa brincadeira de fazer perguntas e dar respostas, aponta para as opiniões de Protágoras, Xenófanes, Aristóteles e Spinoza “como uma espécie de antídoto contra as nossas visões estáticas de Deus, associadas às nossas frustrações.” (p. 128)

No tópico Desejo, o autor nos traz toda uma discussão filosófica sobre o desejo e a utopia, nos dizendo, por exemplo: “Um homem insatisfeito é sempre mais do que ele mesmo, dedicando-se a preparar novas e surpreendentes festas para ele e para os outros”. (p. 137)

Neste ponto do livro, Gustavo Bernardo cita um trecho de um artigo de Freud, de que eu gosto muito – "Escritores criativos e devaneio". Nesse maravilhoso artigo, o pai dos psicanalistas compara os escritores criativos às crianças, dizendo: “Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que tinham ao brincar”. (p. 140) A partir dessa referência, o nosso poeta filósofo e “redator inquieto”, nos diz que escrever seria uma espécie de jogo que reviveria os jogos infantis, deixando-nos mais um de seus coerentes recados:


“Escrever é devanear – com certa disciplina e certo rigor, assim como as crianças são disciplinadas e rigorosas nos seus jogos. Escrevo para me afirmar, para procurar alguém e para investigar o mundo, mas o prazer mesmo é o próprio escrever – e, enquanto a caneta corre o papel, toda rabiscativa, fantasio o rosto dos leitores (e das leitoras) gostando, se estimulando, inclusive e principalmente, a escrever também. Pois o prazer mesmo se encontra em preparar a festa – a impossível festa.” (p.141)


No último capítulo, Gustavo Bernardo nos traz uma citação de Isaac Newton, que invocando a alegria e a modéstia socrática diante da grandiosidade e complexidades humanas, confessou:


Não sei como pareço para o mundo, mas para mim sinto-me somente como um menino brincando na praia e divertindo-me, achando aqui e ali um seixo mais liso ou uma concha mais bonita do que comum, enquanto o grande oceano da verdade permanece totalmente desconhecido para mim.” (p. 162)


Busquei esta citação lá no finalzinho do livro porque acredito que ela ficaria muito bem nesse ponto da inquieta redação de Gustavo Bernardo. O sexto e dialético capítulo se encerra com uma reflexão muito interessante sobre a necessidade de se ter um tempo para a observação e a solidão silenciosas, como haveria também um lugar e um tempo muito importantes para o necessário silenciamento, quando se trata de falar. E eu acrescentaria, quando se pretende também escrever.

O sétimo e último capítulo, ÉTICA, nos traz de novo, Cacaso: “Quando o amor tem mais perigo é quando ele é mais sincero.” O primeiro tópico do capítulo é Moral, onde se discute a velha dicotomia “responsabilidade versus liberdade”. E, então, Gustavo Bernardo nos diz que “não há responsabilidade sem liberdade e sem informação.”, lembrando que “responsabilidade é igual a liberdade mais consciência.” (pp. 150/151)

Mais adiante, o autor nos diz que quem escreve precisa ter em mente os limites concretos e as estruturas limitantes do seu ato de escrever. Só assim, toda a arrogância será desfeita, podendo escrever com carinho, sem se impor, mas descobrindo e se espantando, possibilitando aos outros se descobrirem e se entenderem. E “para trocar palavras esforçadas por olhares atentos e amáveis de leitores.” (p. 158)

No tópico Resistência, depois de se referir a Sócrates, Giordano Bruno e Galileu Galilei, Wilheim Reich, Bertrand Russel para chegar ao Brasil, lembrando-se de Graciliano Ramos, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e Tiago de Mello, Gustavo Bernardo conclui:

Redação, enquanto red-ação, tem muito a ver com coragem. O texto que se pretenda propriamente ético se define pelo grau de resistência. Insistir em pensar, insistir em externar o pensado, insistir em certas conclusões para imprimi-las a fogo sobre o mundo, implica o simultâneo ato de resistir sem concessões à censura, qualquer que seja o seu tipo, qualquer que seja a sua fonte. (p. 165)


Comentando algumas questões relacionadas à censura, o autor ainda nos diz: “Logo, se faz necessário encontrar o máximo de brechas para dizer o máximo, procurando proteger sua pele (que os mortos, de fato, não falam nem escrevem mais).” (p. 166) E ainda:


A prática da redação faz parte do enfrentamento prático das relações sociais. Que têm de ser aliviadas de seu cansaço, da sua arrogância, da sua estupidez cotidiana. Todos estão comprometidos, queiram ou não, com as ações e as redações de seu tempo. Para que este comprometimento tenha um aspecto ético, portanto consciente, é preciso que escritores e leitores busquem transformar as suas relações uns com os outros e com os textos. Escrevendo de modo a despertar nos leitores a vontade e a necessidade de escrever também. Lendo de modo a estabelecer com o texto e com o escritor uma espécie de cumplicidade, cumplicidade que os diferentes estabelecem entre si para, juntos e mais fortes, protegerem os valores e valorizarem a diferença. (p. 170)


Sétimos, o último tópico do último capítulo do livro é uma espécie de conclusão, um honesto balanço sobre a Redação Inquieta de Gustavo Bernardo, feitos pelo próprio. Ele nos diz que: “Se o livro vai acabando, a teoria ética da redação não acabou.” (p. 181) E ainda:


Tentei fazer uma teoria movimentada e movimentável, para provocar muito e instrumentar pouco. Evitei conselhos, regras e, principalmente, exercícios e tarefas. Não quero condicionar ou mecanizar ninguém. Dispus idéias sobre idéias, palavras sobre palavras, à moda do único método de educação que acredito: o exemplo. (p. 181)


Confessando-se feliz com a sua escritura inquieta, tanto no início como no fim deste último tópico, portanto, no final do livro, o autor nos diz que sabe que a felicidade é, apenas, mais uma palavra. E que elas acontecem, estando por acontecer. Um final bem poético e filosófico como era de se esperar.

Para concluir faria uma pergunta: o ensaio Redação Inquieta é um Manual de Redação? Eu diria que sim. Não está no mercado para competir com qualquer outro de dicas e regrinhas e que enriquecem a tanta gente. Não é, claro, um Manual para ser adotado para alunos do ensino fundamental e, provavelmente, sequer para o ensino médio. Mas é um excelente Método (caminho pelo qual se chega a algum lugar) para professores de redação  melhorarem suas próprias redações. Pode ser também esquematizado e simplificado para o uso com alunos de redação dos níveis fundamental e médio, sob a orientação de um competente e apaixonado professor de redação. E, seguramente, é uma grande ferramenta para os estudantes universitários para leitura e discussão em riquíssimos seminários de diferentes disciplinas, correlatas ao exercício redacional.

Redação Inquieta não é, claro, um livro para leitores imaturos. Mas um instrumento poderoso para quem trabalha com o ensino de redação ou para quem está buscando o aperfeiçoamento da própria redação. Com certeza, não agradaria muito a pessoas que querem um Manual de Redação que seja apenas uma espécie de fôrma para encaixotar suas palavras, sem a preocupação de dizer muita coisa.


 www.overmundo.com.br, junho de 2008.

e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com