A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


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REDAÇÃO INQUIETA

Marcela Castelli

Eu sempre gostei de escrever e sempre pude escrever, superando é claro, as dificuldades naturais do ato, com relativa tranquilidade pelo fato que ninguém jamais me disse que eu não podia. Eu nunca sofri com o bloqueio que estou certa que incontáveis pessoas sofrem porque minha escrita não foi reprimida, pelo contrário, incentivada em casa desde cedo. Antes mesmo de começar na escola, nos jardins da vida, minha mãe já me incentivava a conhecer nossas letras, palavras, lia pra mim e ela foi meu exemplo. Não creio que poderia dizer o mesmo se tivesse sofrido a repressão que muitos sofrem. Nunca me faltaram livros para ler nem folhas em branco para escrever. Mesmo que fossem narrativas bobinhas de criança recém alfabetizada com ilustrações loucas embaixo do texto, eu jamais era menosprezada. Não posso calcular o valor disso porque sei que muita gente pensa que não sabe ou não pode escrever porque ouviu isso desde sempre.

Quando eu tinha uns 6 anos, gostava de jogar futebol no recreio com os meninos. Um dia, um deles me empurrou com força, deliberadamente, e eu caí, ralando o queixo no chão da quadra. Ele disse que não era coisa de menina. A diretora veio e não disse nada pra ele, apenas me tomou pela mão, tratou do machucado e me disse para brincar no parquinho de areia na hora do recreio, com as outras meninas. Claro que isso gerou um problema enorme na minha casa e minha mãe perguntou pra escola por que isso estava acontecendo. A coordenadora disse que, se eu quisesse, poderia então jogar futebol com os garotos. Mas que ela não podia fazer nada pra evitar esse tipo de agressão. 

Enfim, no fim das discussões e absurdos, claro que  eu nunca mais quis jogar e comecei a passar o recreio na biblioteca. Pelo menos isso eu tinha naquela escola. Uma boa biblioteca e aos poucos fui gradualmente trocando os livros da Bubu, a Jabuticaba por outros de poesia e foi aí que Manuel Bandeira entrou na minha vida, muito cedo mesmo. Gostava de outros esportes, jogava volley até que decentemente. Mas até hoje eu não gosto de futebol. Se em vez de dizer pra mim que eu não podia jogar, me tivessem dito que eu não podia escrever, talvez eu tivesse sido privada do que hoje faz parte da minha sobrevivência, como respirar e comer. Quantas pessoas não aprendem na escola que não são boas e talvez se descobrissem pela prática muito felizes na escrita?

Queria ter lido esse livro mais cedo, na escola, queria que meus colegas tivessem tido esse livro como arma pra escapar dos rótulos colados em todos nós a cada dia, semana, bimestre, semestre, ano letivo... Eu não entendo porque a escola insiste em se manter como instituição-caricatura de si mesma, ilustrando, ainda, perfeitamente a música do Pink Floyd.

“Aprendemos a falar na vida. Assim como a calar. Quem cala, não consente. Quem cala, ou está se guardando ou se submetendo. A segunda opção é a mais comum: quem cala se submeteu. Entretanto, existem variações barulhentas da submissão calada, onde o que se fala é o nada. Uma destas variações parece ser a redação escolar.”

Acredito que isso só possa mudar se a gente se unir. Incluo aqui os alunos, que precisam se informar e não se deixarem calar e os professores, que mesmo parte dessa instituição precisam lutar, junto aos alunos, para subverterem valores que só servem para esmagar ambas as partes. Assumir que tem algo errado e encarar o problema de frente. Quem aponta esse tipo de coisa é sempre tido como o chato, mas se aceitamos o ruim, o que não dá certo como padrão sob a desculpa que as coisas são assim mesmo, nada jamais vai melhorar. O aluno, o jovem, a criança precisa saber que pode sim escrever. E que isso não precisa nascer da ordem, mas da necessidade, do impulso. Descobrir o próprio prazer no pensar, como você disse.

Quanto a essa coisa de talento, sempre achei um termo meio imbecil, uma desculpa para vetar a arte a uma maioria. Talvez exista uma certa predisposição, tendências. Mas pra mim, o artista nasce mesmo é da inquietude. Aliás, eu me lembro que no documentário Daquele Instante em Diante, Alice Ruiz define o talento do Itamar Assumpção exatamente assim, como inquietude. A arte vem da necessidade de dizer o que na vida concreta não pode ser expresso, e creio que todo mundo tenha algo assim que precise dizer. Mesmo que não viva de escrever, pintar ou atuar, há arte em cada um e a tentativa de criar seres iluminados como artistas vem da mesma mentalidade de que o rei era um escolhido de deus: controlar, ser incontestável por uma lógica inexistente. É porque é. É porque deus quis assim. E o primeiro artista de todos, o professor, não recebe a graça, curiosamente, embora ocupe o primeiro palco da vida de cada um.

“Amar é o rascunho da principal de todas as faltas. Escrever pode ser uma metonímia do amor, e o que se escreve uma metonímia do mundo (do ser amado).”

Ainda que o livro como um todo não fosse uma ferramenta de análise maravilhosa, valeria só por essa consideração. Obrigada por ela. E novamente, obrigada pelas referências. Todas devidamente anotadas e pesquisadas!


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