A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

Trecho:

"Ela vem. O rosto modelado pelo reflexo das chamas. O reflexo atravessa a pele e se esconde sob os olhos. Ela não pula a fogueira mas passa por cima sem se preocupar. Não se queima, nem poderia.

Ele a olha espantado. Extasiado. Como ninguém reparou nela. Nem o irmão. Nem os primos. Ela o olha através da chama. Esse olhar aquece e enregela. Ela chega perto dele e o toca na mão: raios prismáticos se espalham a partir do toque.

Ele pensa em levá-la para a varanda vazia na frente da casa. Não fala o que pensa, mas ela entende e concorda. Ninguém volta os olhos para eles. Ninguém percebe o casal saindo de perto do fogo. O curto caminho se passa íntimo, como se caminhassem numa praça sob amendoeiras florindo e todos os que os cercassem fossem mudos. Como se o mundo tivesse se interrompido e emudecido.

Pelo corredor lateral da casa, eles caminham. Nas costas, a chama. À frente, a sombra. O sereno. O calor abandonado. No telhado o galo canta, mudo, na direção norte.

De onde ela surgiu? Pedro não a conhecia. Ela também não o conhece. No entanto eles se reconhecem um ao outro. Reconhecem o olhar de lado, os reflexos luminosos de sangue e o pouco de pele a brilhar. A boca entreaberta, sem respirar. O pensamento dele gagueja. Não pode pensar agora. Deve agir como quem suspende o pensamento, mas é difícil. As palavras escapam antes de serem pensadas. Por exemplo, a palavra “Hitze”, que lhe vem sem que a entenda. Em português, significa “ardor”: ar e dor.

Na varanda vazia, faz frio. A fogueira ficou lá atrás. Eles se sentam no chão de ladrilho nu. Mudos. No canto, o baú dos lenços para o pescoço. O medo do mundo por perto demais. Ela chegou na festa descalça, os pés morenos e pequenos, vinda não se sabe de onde, convidada não se sabe por quem. Os pés nus sobre o ladrilho igual: frio. Os cabelos encaracolados, escuros. Rosto de criança, pernas grossas de mulher.

Perto.

Perto demais.

Cheiro de jasmins impregnam a varanda. Não, não são jasmins, mas de qualquer forma: de onde o cheiro se as flores não abrem à noite? Ah, o cheiro vem do vaso no canto da varanda onde desponta a dama-da-noite. A planta nunca floriu – até agora. O odor é forte e oleoso.

Qual é o seu nome? Ela pergunta. Sua voz é grave como um sonho de violoncelo. Pedro, ele responde. Meu irmão também se chama Pedro mas ele é o Novo. Eu sou o Velho. Pedro quer dizer pedra, sim. Fundamento. Se bem que eu me sinta tantas vezes sem chão. Agora, por exemplo, pareço água que brilha. E você: qual é o seu nome?

Cristo, ela diz. Ele toma um pequeno susto. Pergunta: como? Maria de Cristo, ela confirma. Ah, ele retruca, baixando a cabeça. Mas isso não quer dizer que, quer? Ele deseja perguntar se ela assume o nome como serva de Deus, como alguém que não pode beijar. Não consegue fazer a pergunta de modo direto. Tatibitateia. Mesmo assim ela entende e responde: não.

Ela e a dama-da-noite espalham um perfume ativo. Brancas, ousadas. Os odores da memória se atropelam no instante: o cheiro do álcool, a cola de maisena nas bandeirinhas multicoloridas, o chocolate dos brigadeiros, os pés de Maria, a fralda de pano bordada na gaveta fechada com sachê. Sob a calça, a pele ressecada do prepúcio. Quando ele sente que tem certeza de alguma coisa:

... eu te amo muito.

Logo a seguir se corrige e se confunde. Quer dizer, eu não te amo, ainda não. Eu quero me dizer para você, porém você já se torna mais importante que tanto a completar o quebra-cabeça. É como se o sol voltasse embora o sol me envergonhe. A vergonha de nós dois aqui. Te quero tanto quanto não me quero: é isso a vergonha.

Bem-me-quer mal-me-quer não-me-quero, brinca Pedro mexendo nos dedos do pé dela. Ela sorri sorriso diferente do irmão: não há ironia nos lábios, mas também não há compreensão. Apenas espanto. Ele se espanta com o espanto que ela demonstra e torna a tropeçar nas palavras. Na verdade eu não te amo, porém minha vida agora depende de sorver as suas sombras. Não posso te mostrar aos outros por alguns anos. Amor, segredo e culpa. Quem não sabe esconder não sabe amar. Anacronicamente cortês, Pedro lhe entrega a única coisa que tem: o movimento errático da sua emoção.

Não me entendo nem posso te entender, ele diz. Trago comigo dezesseis anos em forma de recordação. Seus quinze não me entendem, meus tantos só precisam. Te tocar, pegar e não mostrar. Te sei tanto em tão pouco tempo, mas sinto que pretendo te perder como um estúpido.

Ela se comove. Ele se surpreende. A mão dela passa pelo rosto dele, procurando com o dedo médio um ponto logo abaixo da orelha esquerda. Ele se arrepia e segura a mão dela com força. Fala que o odor da memória não o deixa, aqueles cheiros caóticos e claros como o sol que não conhece ou de que não se lembra.

Me deixa? Me deixa dormir no seu colo, meus cabelos descansarem na sua coxa, minha boca soprar de leve essa penugem fulva. As palavras mais do que o sopro provocam nela intenso arrepio. Me acorda depois? Ele pede. Quando me acordar deste sonho no meio dessa madrugada absurda, o faça por favor trazendo uma caneca de café sem açúcar.

Por favor. Esconda-se na cozinha mas evite os pratos de doces. Senão nos descobrem, alimentam e empapuçam. Afaste-nos dos doces. Só assim a verei depois do café a plantar salsa entre as flores. Poderei observá-la concentrada nos cadernos pautados. Nós fingiremos estudar juntos, um explicando o outro. O sol vai aparecer se não ficarmos ansiosos. Aí poderei te ver esfuziante depois de todo o sono e sonho, depois de todo o colo e estudo, a me ofuscar pouco antes de se despir.

Ela não se assusta nem recolhe o sorriso. Quem se espanta é ele, mas lembra que ainda não a ama. Ele a admira como se ele mesmo fosse maior e mais belo do que ela tão-somente porque desenvolveu a capacidade de admirá-la, embora a lama se precipite no fundo.

Para evitar os doces e as tias é preciso cantar. Cante que somos felizes, ele pede. Cante aquela canção, nós a reconheceremos quando você cantar. Eu brinco com os dedos dos seus pés enquanto você canta. Ele aperta os dedos do pé esquerdo da menina para relaxá-la, mas é ele quem adormece.

Ele sonha que Maria de Cristo o acorda cedinho com o café e um beijo. Um beijo que solta fiapos de fumaça entre os olhos. No sonho também faz frio. No sonho eles vão aprender a deixar horas a fio os lábios unidos sem ressecá-los. De quando em quando a ponta da sua língua procurará a dela molhando de propósito as bordas da timidez. Talvez assim a noite passe mais rápido."


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