A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

A DESCOBERTA DO OUTRO COM INTENSO LIRISMO

Antônio Mello

 

Há mais de 20 anos eu fazia a resenha de Pedro Pedra, o primeiro romance de Gustavo Bernardo. Era para a Leia Livros, do saudoso Caio Graco, que havia sido presidente do júri que concedera o primeiro prêmio para aquele romance.

A resenha começava assim: "Eis um livro curioso, para não dizer inacreditável. Página a página, a gente vai constatando uma coisa simplesmente incrível: o autor, que é professor de redação e tem até livro publicado sobre o assunto (Laboratório de redação), acredita firmemente que o adolescente (pasmem!) pensa". Esse respeito pelo leitor é uma característica do trabalho de Gustavo Bernardo, que talvez seja um dos poucos autores - se não o único - a ser finalista do Prêmio Jabuti em quatro categorias diferentes.

Agora me pedem para falar de Reviravolta, seu mais recente romance. Entre aquele Pedro Pedra e este, tivemos Me nina, Lúcia, A alma do urso, Desenho mudo e O mágico de verdade. Já são sete romances, portanto. Alguns as editoras apresentam como juvenis, é o caso de Pedro Pedra, outros elas lançam como "adultis" - é o caso deste Reviravolta. A distinção pode fazer sentido para o mercado, mas o autor parece não se preocupar muito com ela, escrevendo sempre para um leitor ideal: aquele que gosta de ler.

Os romances de Gustavo Bernardo conversam entre si, assim como a ficção conversa com a realidade para melhor duvidar dela. O jovem Pedro, do primeiro romance, se desdobra em dois irmãos, em Reviravolta: Pedro Velho e Pedro Novo, que nasceram no mesmo dia, mas com sete anos de diferença. Os gêneros literários também conversam entre si nos romances do escritor: pode-se dizer que Reviravolta é uma narrativa lírico-apocalíptica, combinando fábula com ficção científica e ciência com história de amor.

Como se não bastasse, tempos e cidades conversam igualmente entre si. Tudo acontece na noite de 17 de junho de 1962 (quando o Brasil decidia, os mais velhos se lembram, uma Copa do Mundo), mas ao mesmo tempo em um futuro distante em que não há mais seres humanos. Tudo acontece em um quintal do bairro do Méier, no Rio de Janeiro, mas ao mesmo tempo na torre da catedral medieval de Freiburg, na Alemanha.

Como de hábito nos romances do autor, o ponto alto se encontra na forma da narração. Não vou revelar aqui quem é o narrador, porque esse é um dos enigmas mais importantes do livro. Esse narrador fala na primeira pessoa, mas é onisciente, contrariando a lógica desse tipo de narração; ele é onisciente, mas volta e meia os acontecimentos o surpreendem, contrariando mais uma vez a lógica narrativa.

Entretanto, em algumas coisas nem o autor nem o resenhista mudam. Há 20 anos, eu dizia que Gustavo Bernardo se comovia além da conta com seu personagem, beirando o sentimentalismo. Isso acontece novamente em Reviravolta, principalmente quando Pedro Velho encontra uma personagem chamada Maria de Cristo. Mas, na maioria das vezes, ele continua nos mostrando com intenso lirismo e ternura nada camuflada que precisamos descobrir o outro (e o outro em nós mesmos), antes que nada mais reste para contar histórias.

Já disseram que Gustavo Bernardo é um erro de marketing, porque ele não tem um rosto único para ser capturado e divulgado pela mídia. Como se não bastasse ser autor de romances, ainda escreve e publica ensaios: sobre literatura e filosofia, sobre redação e educação. Os ensaios, também em número de sete até hoje, incluem os excepcionais A dúvida de Flusser e A ficção cética (leiam, leiam, leiam). Os leitores, então, talvez devamos agradecer essa produção múltipla, esse "erro de marketing" chamado Gustavo Bernardo.

Jornal do Brasil, 27/10/2007


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