A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

MULTIDÃO DE MUNDOS

Manuel da Costa Pinto

  

"REVIRAVOLTA" é o romance de um autor mais conhecido por trabalhos de teoria literária e pelo resgate da obra de Vilém Flusser (pensador tcheco que viveu no Brasil e adotou o português como idioma filosófico). Organizador de seus ensaios para a editora Annablume, Gustavo Bernardo não é um "discípulo", mas assimila suas ideias com o distanciamento irônico que só a ficção permite.


A nossa imaginação pode ultrapassar de muito as grades daquilo que chamamos de "realidade" e estabelecer, além, uma multidão de mundos. Esses mundos imaginários serão tão consistentes, ou mais, do que o mundo da "realidade", desde que nossa imaginação criadora de mundos seja informada pelo rigor do nosso intelecto. Imaginação rigorosa é a mola mestra da atividade criadora. O mundo da "realidade" não passa de uma criação da imaginação imperfeitamente rigorosa.


A passagem está num dos ensaios de Flusser em "Ficções Filosóficas" (Edusp). Poderia estar em "Reviravolta", cujo mérito consiste justamente em injetar rigor numa fantasia futurista.

O enredo se inicia com uma festa junina num subúrbio carioca, no dia em que a seleção brasileira disputa a final da Copa de 62 contra a Tchecoslováquia. O folguedo celebraria o nascimento dos irmãos gêmeos do protagonista Pedro, mas sua mãe e um dos bebês morrem no parto.

Sobra apenas um garoto, que terá o mesmo nome do irmão. Eles passam a se chamar Pedro Velho e Pedro Novo - e esse é o primeiro de uma série de estranhamentos que vão se insinuando nessa trama cheia de simetrias e personagens complementares.

Escrito na terceira pessoa, o livro parece narrado por alguém alheio ao nosso tempo - uma voz que explica detalhadamente coisas banais (a arte de soltar balões, por exemplo) como se fosse algo desconhecido do leitor. Quem desconhece empiricamente esse mundo demasiado humano, porém, é o próprio narrador, que aos poucos percebemos ser uma inteligência artificial falando de um futuro não muito distante.

"Reviravolta" seria um romance de ficção científica? Conforme descreve seu universo (em que as máquinas se replicam e convivem com paradoxos lógicos inspirados nos desenhos de Escher), o livro vai se assemelhando a filmes como "Matrix". Falta, porém, a parafernália típica das telas.

O interesse do autor tampouco se limita à interação com inteligências não-biológicas. Por trás das referências a modelos da física e da nanotecnologia, está uma reflexão filosófica sobre nossos níveis de percepção. "Reviravolta" retrata paisagens familiares (as festas do interior, os rituais entranhados na memória afetiva) para inocular a suspeita sinistra de que, afinal, somos "avatares holográficos" habitando uma realidade que, como queria Flusser, não passa de "criação da imaginação imperfeitamente rigorosa".

 Folha de São Paulo, 06/10/2007


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com