A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

O INFINITO CONTIDO ENTRE INSTANTES

Elias Fajardo

 

“O tempo é uma linha infinita entre instantes”. Esta frase, do físico e filósofo Luiz Alberto de Oliveira, pode ser uma pista para o entendimento e a fruição deste romance em que o tempo se expande e se dilata, se amplia e depois encolhe, alternada e simultaneamente.

O tempo é o mais concreto e o mais abstrato dos fenômenos e, segundo Santo Agostinho, todo mundo sabe o que é mas não sabe explicar. Se tudo isto é verdade (ou pelo menos algo que podemos considerar como tal), o clima fantástico, onírico e ambíguo do romance de Gustavo Bernardo, Reviravolta, tem muito a nos dizer.

Se o infinito está contido entre instantes e o próprio símbolo que o expressa (um oito deitado) é uma espécie de laço, como observa Gustavo Bernardo, estamos todos condenados, para o bem e para o mal, em termos simbólicos e físicos, a nos enlaçarmos, ainda que estejamos o tempo todo querendo romper e ultrapassar esses laços.

Os acontecimentos de uma festa junina na noite de 17 de junho de 1962 se repetem incessantemente ao longo do correr dos anos. E, no entanto, o tempo passa. Os personagens crescem, amam, odeiam e voltam sempre ao mesmo ponto.

“Ao invés de desdobrar os eventos, a reviravolta os redobra de fora para dentro e forma um sistema de hierarquias entrelaçadas. Nas reviravoltas aninhadas uma sombra se dobra sobre a coisa que a provoca, um laço enlaça a si mesmo por dentro.”, escreve Gustavo Bernardo. Por trás de textos como este, caprichosos, surreais e enganosamente simples, estão presentes conceitos de pensadores como Deleuze (que trabalha o tempo fora dos eixos e a História reescrita a partir de certos acontecimentos) e Freud, para quem a produção de laços de memória não termina nunca, não se dá de modo seqüencial, num tempo ordenado e sucessivo como estamos acostumados a pensar.

Nesse ponto alguém pode se indagar: então para que ler um romance? Não seria melhor assistir a uma aula do autor, professor de teoria da literatura na UERJ? Reviravolta é uma mescla de situações ficcionais com um trabalho de reflexão a partir de conceitos filosóficos e científicos. Nos momentos em que esta mistura é bem dosada, trata-se de uma leitura empolgante.

Nesse sentido merece ser citado o capítulo 21, dedicado ao artista visual holandês Escher, que criou paradoxos visuais baseados em princípios de simetria e padrão. A escada que sobe e desce ao mesmo tempo e as mãos que se desenham são incongruências e imagens poéticas muito expressivas. Elas nos indicam, como quer o autor, que ilusões de ótica são bem mais do que ilusões.

A parte ficcional que trata dos dois irmãos Pedros, do pai que espera infinitamente pelo rádio o resultado do jogo do Brasil, das tias que servem eternamente iguarias juninas, também pode ser considerada um biscoito fino. Mas reparos podem ser feitos em torno da relação de Pedro com a namorada Maria, em alguns trechos carregada de pieguismo. Em outros momentos, o denso material científico-filosófico torna-se cansativo. Mas aqui é preciso considerar que há uma dificuldade estrutural em tratar tais temas.

Ou seja, para questões complexas, há sempre uma resposta simples que na maioria das vezes está errada. O autor não pretende e nem faz concessões. Seu universo é lírico, complicado e sensorial, e dá uma bela contribuição à literatura brasileira contemporânea.

em O Globo, 27/10/2007
e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com