A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

O TEMPO, A  CRIAÇÃO E AS MÃOS DE ESCHER

Denise Brasil

 

Em Condição pós-moderna, David Harvey fala da compressão do eixo espaço-tempo como uma característica da contemporaneidade, intimamente ligada às formas flexíveis de acumulação do capital e associada à percepção da velocidade e do encurtamento de distâncias que o desenvolvimento da tecnologia inegavelmente trouxe para parcela significativa das sociedades.

Dessa característica deriva-se outra: uma apologia do presente, simultânea negação não só dos erros passados da modernidade, mas também das utopias projetadas para um futuro melhor. O risco da superficialidade, para o qual alerta Harvey, é evidente e, não por acaso, desemboca frequentemente em recortes ideológicos conformistas e, em última análise,  conservadores.

O superficial, entretanto, não é, nem deve ser, timbre obrigatório para reflexões sobre categorias como o tempo, o sujeito e a criação. Muito para além do kitsch pós-moderno, aproveitando o que há de mais produtivo na dialética de desconstrução e construção que marca a modernidade, o novo romance de Gustavo Bernardo, Reviravolta, instiga o pensamento e, por meio de situações insólitas vividas pelos personagens, explora com profundidade essas categorias.

De fato, o romance combina uma narrativa inquietante no passado com a perspectiva de um futuro situado na ambígua dobradiça entre o fascínio da criação e uma outra e inseparável face: a da destruição do homem, da ruína, da paralisia do próprio tempo (ele que é paradoxalmente indispensável para a chegada desse mesmo futuro). A verdadeira condição dos personagens e do narrador, revelada em uma história de paralelos, extrapola as fronteiras de tudo o que já vivemos até hoje, mas, ao mesmo tempo, é em tudo semelhante à tradição da modernidade, na qual aquilo que se percebe como progresso e civilização carrega, como indelével duplo, o caráter lutuoso da morte e da ruína. Não por acaso, nas reflexões de um inicialmente misterioso narrador, evoca-se o trauerspiel de Benjamin.

Também as situações e personagens apresentam suas duplas (e por vezes múltiplas) faces, sempre seguidos de perto pela morte. Em uma única noite, cuja insólita duração de vários anos marca a interdição do amanhecer do dia, vivem e crescem Pedro Velho e Pedro Novo, reduplicados em uma contraditória convivência de homonímia (Pedro) e antonímia (Velho/Novo). São irmãos que convivem com a finitude de Maria da Glória, gêmea natimorta de Pedro Novo, ambos, por sua vez, partícipes da morte da mãe, que não sobreviveu ao parto, na mesma noite de 17 de junho de 1962 em que basicamente se passa o romance.

Na representação alegórica dos limites do contínuo do tempo, do mesmo modo que a inexplicável duração da noite representa a impossibilidade do dia, o amanhecer traz o desequilíbrio, a destruição da casa da família. De comum entre esses tempos, significativamente, a confirmação de uma permanente solidão, metaforizada pelo vazio das ruas, pela cidade fantasma que os irmãos encontram de dia, quando, finalmente, conseguem sair, sucedendo a noite em que a família se encontrava isolada no quintal da casa.

Cria-se, assim, uma ruptura com a progressão linear do tempo, que evoca um passado e um futuro fora de um eixo de sucessão no tempo cronológico. Pela reedição do conceito de peripécia, tomado como “a volta-do-destino”, chega-se à “reviravolta” de que fala o título. Ou a uma das muitas reviravoltas que, no romance, envolvem também o sujeito e a criação, ou ainda, significativamente, a modernidade e a técnica.

Particularmente nestes aspectos, são muitas as imagens que demandam do leitor uma interpretação que se projeta como sombra nas promessas de futuro, via de regra companheiras dos avanços tecnológicos. De fato, na casa dos Pedros, o rádio, um dos ícones da comunicação com o mundo em 1962, só emite som de “estática”, e a fotografia, única esperança dos irmãos de que seja revelada a presença da irmã morta entre eles, nunca se concretiza. Sobre esses insucessos da técnica, entretanto, paira o espanto de uma autonomização da tecnologia, projetada na narrativa como algo assustador, com as feições da Gárgula.

A busca do conhecimento, sugerida pelo avô dos Pedros que, com um cubo nas mãos, está sempre murmurando o “Mehr Licht” de Goethe, volta-se sobre si mesma, quando Pedro Velho descobre viver prisioneiro de um mundo de imagens que o criou e revê sua vida em um mosaico de telas fragmentadas, a partir das quais se teria construído uma narrativa com a impressão de linearidade, a mesma que ele havia conhecido, até então, como a sua própria História. A fonte dessa criação (a figura do narrador), por sua vez, surpreende quando, na condição de produto final de um conhecimento e de uma técnica superavançados, responde repetidas vezes “não sei” às indagações de Pedro Velho e às que ela mesma levanta.

Dando forma a essa reflexão, a estrutura da narrativa lança mão de um conhecido recurso da modernidade: o do entrecruzamento de tempos e espaços. São histórias aparentemente paralelas, em tempos também distintos. Em outro tipo de paralelismo, característico das experiências narrativas atuais, comparecem ainda, à imbricada composição do romance, tanto as projeções de uma assustadora ficção científica contemporânea, quanto a encruzilhada do Édipo, na subvertida busca das origens pelas ruas do Méier. O que surpreende, entretanto, é a maneira circular como tais planos se combinam ao final, evocando o diagrama de Escher, “As mãos que se desenham”, insistentemente citado pelo narrador, em que cada uma das mãos é, ao mesmo tempo, criadora e criação, em que o já feito é também o que ainda não se fez por completo.

Várias podem ser as linhas de análise do livro, que combina uma linguagem ficcional cuidadosamente elaborada com a densidade da reflexão filosófica, mas, uma vez posta a discussão de categorias como o tempo e o sujeito, a técnica e a modernidade, a “reviravolta” de Gustavo Bernardo está inequivocamente ligada aos dilemas de uma contemporaneidade na qual se apregoam o fim do sujeito e da História. Longe desse tipo de pregação – que, no âmbito da cultura, como têm demonstrado autores como Jameson, Terry Eagleton e Perry Anderson, constituem manifestações superestruturais da lógica atual do capitalismo –,  o romance faz com que tais categorias dobrem-se sobre si mesmas, levando-as a reassumirem o posto da dúvida, aquele a partir do qual, um dia, também elas foram cunhadas, no curso da superação de uma ordem tutelada pela monolítica visão cristã.

Muito distante da citação gratuita e dos pastiches pós-modernos, portanto, a imagem de Escher pode ser lida como representação da própria arquitetura da narrativa, na qual a dialética entre passado e futuro, entre o sujeito criador e aquilo que ele cria, coloca o presente e a ação dos homens como inquietantes enigmas a serem refletidos, com as armas do pensamento crítico, no devir de uma História ainda a ser construída.

em Revista Contracultura, nº 1, junho de 2008
e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com