A ESTANTE DE GUSTAVO BERNARDO


reviravolta
    

REVIRAVOLTA

Mário Amora Ramos

 

Em primeiro lugar, sinto muito pela perda recente de seu pai. Percebo muitas referências carinhosas a ele no livro, a começar pela epígrafe. Seu livro é sensacional! Vai dar o que falar... Há nele um "autor dentro do autor", como no Dom Quixote, e uma "história dentro da história", como em Hamlet, mas você estende a subversão muito além. Não quero acrescentar mais nada para não tirar o prazer da descoberta por eventuais leitores destes comentários.

Como sempre, vejo referências a Shakespeare onde muitas vezes elas não existem. A começar pela sugestiva capa Céu Vermelho, de Oswaldo Goeldi, que lembra Tróia, na advertência de Cassandra em Tróilo e Créssida, bradando fora de si: "Cry, cry! Troy burns, or else let Helen go" (2.2).

Muito oportuna a citação inicial de Nietzsche: "O que diz a profunda meia-noite?". Creio que há uma resposta satisfatória em Macbeth, quando ele diz a si mesmo: "Stars, hide your fires;/ Let not light see my black and deep desires" (1.4). Sim, meu amigo, Shakespeare viu antes de todos que a noite esconde nossos fantasmas. Tanto é assim que na primeira cena de Hamlet tinha acabado de soar a meia-noite.

Por falar em fantasmas, o estranho "lume azul no interior da igreja" lembra uma fala de Ricardo III, quando ele acorda de seu sonho e comenta: "The light burns blue. It is now dead midnight" (5.3).

Moro em Salvador, na Bahia, e como você sabe, aqui a festa de São João tem uma importância quase tão grande quanto a do Natal. Costuma-se viajar para o interior nesta época para rever parentes e aproveitar as festas tradicionais que ainda se preservam. Assim, suas muitas referências ao São João têm para mim um sabor especial, como carioca que conheceu o Chave de Ouro na tenra infância, e hoje como baiano adotivo. Anavan, anarriê!

Espero não me tornar enfadonho, mas a noite interminável de 17 de junho de 1962 lembra novamente Macbeth, nesta fala de Malcolm que encerra o quarto ato: "The night is long that never finds the day" (4.3).

Seu livro aborda limites do conhecimento que não devem ser transpostos. É preciso ouvir o conselho de uma das feiticeiras de Macbeth, ao adverti-lo: "Seek to know no more" (4.1). As conseqüências podem ser terríveis.

De resto, parabéns pela bela pesquisa sobre a "renderização de imagens tridimensionais" e os "hologramas da sétima geração" e seus instrutivos comentários sobre as "mãos de Escher". Como diz a inscrição do velho sino (cap. 36), "eu vago sempre entre enigmas".

Um grande abraço, com parabéns entusiasmados.
 

Salvador, 07/10/2007


e-mail : gustavobernardokrause@gmail.com